O código do discurso de Viver a Vida
2010
O recente artigo Como Viver a Vida, segundo a Globo teve uma enorme repercussão. Somente aqui no site da Você S/A, foram mais de 80 comentários. O mesmo artigo foi repercutido em vários sites da internet e, ultimamente, tenho recebido e-mails de pessoas que leram o artigo publicado em jornais de diversas cidades brasileiras. Fico extremamente feliz que esse despretensioso texto esteja alimentando uma rica discussão Brasil afora.
Bom, não é a primeira vez que escrevo um artigo para comentar um anterior (vide essa discussão interessante sobre funcionalismo público e crescimento econômico ). Porém, diante da celeuma em torno do artigo sobre a novela global , cá estou eu novamente.
Antes de prosseguir, devo alertar o leitor que irei (re)visitar alguns autores densos, o que deverá tornar a narrativa desse artigo um pouco menos descontraída que meu estilo habitual.
No fim das contas, qual o problema com Viver a Vida ou com a nossa indústria do entretenimento de maneira geral?
Primeiramente, vamos falar de necessidades. Herbert Marcuse diz que combinamos duas categorias de necessidades: as falsas e as verdadeiras. As falsas são aquelas superimpostas ao indivíduo por interesses sociais particulares ao reprimi-lo. A maioria de nossas necessidades comuns, segundo Marcuse, é desse tipo: “descansar, distrair-se e consumir de acordo com os anúncios, amar e odiar o que os outros amam e odeiam”. Marcuse considera que o indivíduo (comum) não exerce controle algum sobre essas necessidades – elas agregam um conteúdo e uma função sociais determinados por forças externas alheias ao indivíduo.
A grande dificuldade reside justamente em apontar o que é falso e o que é verdadeiro: “como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade?“, questionaria Marcuse. A libertação é dependente da consciência da servidão, mas esse momento de consciência é sempre impedido pela predominância de necessidades falsas que se tornaram próprias do indivíduo.
Em um dos capítulos da ótima coletânea Matrix: bem-vindo ao deserto do real, o esloveno Slavoj Zizek relembra uma passagem de “Le prix du progrès”, um dos fragmentos que conclui A dialética do Iluminismo, de Adorno e Horkheimer. No texto, os autores citam o argumento de um fisiologista francês, Pierre Flourens, contra a anestesia médica à base de clorofórmio, a qual, segundo o fisiologista, funciona somente na rede neuronial da memória, ou seja: “enquanto somos cortados vivos na mesa de cirurgia, sentimos a dor terrível total; mas mais tarde, após acordarmos, não nos lembramos dela”. Essa seria a metáfora perfeita do destino da razão baseado na repressão da natureza em si: nós sentimos a dor, mas, em virtude da repressão, não nos lembramos dela. A alienação é a nossa morfina, a nossa anestesia.
Em resposta ao colega Alvaro Augusto, cheguei a comentar:
Ao que pesem minhas diferenças com os pensadores de esquerda, li boa parte deles. Michel Foucault, por exemplo, tinha uma grande preocupação com o “discurso”. O que está implícito nos discursos que lemos e ouvimos diariamente? Dessa indagação nasceu a riquíssima obra A ORDEM DO DISCURSO.
“Mas o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e seus discursos proliferarem indefinidamente?”, interpela o próprio Foucalt. Além de um convite à reflexão, Foucalt nos conduz por uma jornada onde ele mesmo revela que os discursos fazem parte de um mecanismo de manutenção – ou, melhor, perpetuação – do poder. “Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder”.
Foucalt aponta que o discurso não é apenas o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo que se luta, “o poder do qual nos queremos apoderar”.
O que quero dizer com isso? É simples: o script segue os desejos do autor de modelar a sociedade a partir de sua própria visão de mundo. Não é meramente uma ficção bobinha. Quando uma das médicas da novela pergunta para a sua colega se ela vai esperar a sua paciente morrer de câncer para ter um romance com o marido dela, o autor está passando o seu recado sutilmente – seja ele qual for, defenda ele o interesse que for.
Enfim, meus amigos, eis a importância de refletirmos acerca dos discursos que estão na moda em nossa sociedade atual. Qual código está inscrito nos discursos daquilo que assistimos, ouvimos, proferimos e repetimos por aí? O que estamos ajudando a formar ou consolidar? Que poder simbólico está representado nesses discursos?
Parafraseando Bourdieu: a grande questão é saber descobrir esse poder simbólico onde ele se deixa ver menos…
Até a próxima!

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