O código do discurso de Viver a Vida

O recente artigo Como Viver a Vida, segundo a Globo teve uma enorme repercussão. Somente aqui no site da Você S/A, foram mais de 80 comentários. O mesmo artigo foi repercutido em vários sites da internet e, ultimamente, tenho recebido e-mails de pessoas que leram o artigo publicado em jornais de diversas cidades brasileiras. Fico extremamente feliz que esse despretensioso texto esteja alimentando uma rica discussão Brasil afora.

Bom, não é a primeira vez que escrevo um artigo para comentar um anterior (vide essa discussão interessante sobre funcionalismo público e crescimento econômico ). Porém, diante da celeuma em torno do artigo sobre a novela global , cá estou eu novamente.

Antes de prosseguir, devo alertar o leitor que irei (re)visitar alguns autores densos, o que deverá tornar a narrativa desse artigo um pouco menos descontraída que meu estilo habitual.

No fim das contas, qual o problema com Viver a Vida ou com a nossa indústria do entretenimento de maneira geral?

Primeiramente, vamos falar de necessidades. Herbert Marcuse diz que combinamos duas categorias de necessidades: as falsas e as verdadeiras. As falsas são aquelas superimpostas ao indivíduo por interesses sociais particulares ao reprimi-lo. A maioria de nossas necessidades comuns, segundo Marcuse, é desse tipo: “descansar, distrair-se e consumir de acordo com os anúncios, amar e odiar o que os outros amam e odeiam”.  Marcuse considera que o indivíduo (comum) não exerce controle algum sobre essas necessidades – elas agregam um conteúdo e uma função sociais determinados por forças externas alheias ao indivíduo.

A grande dificuldade reside justamente em apontar o que é falso e o que é verdadeiro: “como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade?“, questionaria Marcuse. A libertação é dependente da consciência da servidão, mas esse momento de consciência é sempre impedido pela predominância de necessidades falsas que se tornaram próprias do indivíduo.

Em um dos capítulos da ótima coletânea Matrix: bem-vindo ao deserto do real, o esloveno Slavoj Zizek relembra uma passagem de “Le prix du progrès”, um dos fragmentos que conclui A dialética do Iluminismo, de Adorno e Horkheimer. No texto, os autores citam o argumento de um fisiologista francês, Pierre Flourens, contra a anestesia médica à base de clorofórmio, a qual, segundo o fisiologista, funciona somente na rede neuronial da memória, ou seja: “enquanto somos cortados vivos na mesa de cirurgia, sentimos a dor terrível total; mas mais tarde, após acordarmos, não nos lembramos dela”. Essa seria a metáfora perfeita do destino da razão baseado na repressão da natureza em si: nós sentimos a dor, mas, em virtude da repressão, não nos lembramos dela. A alienação é a nossa morfina, a nossa anestesia.

Em resposta ao colega Alvaro Augusto, cheguei a comentar:

Ao que pesem minhas diferenças com os pensadores de esquerda, li boa parte deles. Michel Foucault, por exemplo, tinha uma grande preocupação com o “discurso”. O que está implícito nos discursos que lemos e ouvimos diariamente? Dessa indagação nasceu a riquíssima obra A ORDEM DO DISCURSO.

“Mas o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e seus discursos proliferarem indefinidamente?”, interpela o próprio Foucalt. Além de um convite à reflexão, Foucalt nos conduz por uma jornada onde ele mesmo revela que os discursos fazem parte de um mecanismo de manutenção – ou, melhor, perpetuação – do poder. “Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder”.

Foucalt aponta que o discurso não é apenas o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo que se luta, “o poder do qual nos queremos apoderar”.

O que quero dizer com isso? É simples: o script segue os desejos do autor de modelar a sociedade a partir de sua própria visão de mundo. Não é meramente uma ficção bobinha. Quando uma das médicas da novela pergunta para a sua colega se ela vai esperar a sua paciente morrer de câncer para ter um romance com o marido dela, o autor está passando o seu recado sutilmente – seja ele qual for, defenda ele o interesse que for.

Enfim, meus amigos, eis a importância de refletirmos acerca dos discursos que estão na moda em nossa sociedade atual. Qual código está inscrito nos discursos daquilo que assistimos, ouvimos, proferimos e repetimos por aí? O que estamos ajudando a formar ou consolidar? Que poder simbólico está representado nesses discursos?

Parafraseando Bourdieu: a grande questão é saber descobrir esse poder simbólico onde ele se deixa ver menos…

Até a próxima!

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Como Viver a Vida, segundo a Globo

É fato: as novelas da Globo e seus programas de grande audiência continuam ditando normas, valores e costumes. Volta e meia ouvimos alguém soltar famosos bordões como “hare baba”, “tô certo ou tô errado?”, “né brinquedo não”, “ishalá”, e outros consagrados pelos folhetins globais.

Antes que alguém levante a mão para perguntar, esse texto tem, sim, muito a ver com Administração. Qualquer evento que influencie, direta ou indiretamente, o nosso comportamento é extremamente importante para a forma como conduzimos os nossos negócios. Não é à toa que os grandes anunciantes disputam a peso de ouro o horário nobre da televisão brasileira – bem como os próprios atores. Da mesma forma, as grifes (re)direcionam suas coleções aos estilos exibidos pelas belas e influentes atrizes das novelas, mesmo que essas se passem em lugares exóticos como Índia e Marrocos, ou genuinamente brasileiros como Barretos, Rio e São Paulo. Até pouco tempo atrás, muitas moças estavam usando parte do sutiã à mostra, para imitar o modelito de Norminha, a simpática – e faceira – personagem interpretada recentemente por Dira Paes. Novelas ditam modas e, como administradores, devemos estar atentos.

Espanta-me essa última, que traz o curioso título de “Viver a Vida”. Apesar de apresentar depoimentos emocionantes de pessoas reais que superaram grandes problemas no final dos episódios, Viver a Vida dá um show de deturpação de valores do começo ao fim de cada capítulo.

Normalmente, as obras de ficção dividem claramente as pessoas entre boas e más, o certo e o errado são evidentes, e nos colocamos a torcer pelo sucesso do protagonista e o castigo dos vilões, como o fizemos em A Favorita, com o duelo entre Donatela e Flora.

Na novela de Manoel Carlos, esse dualismo não existe. Com a desculpa de aproximar seus personagens da realidade, o autor lhes confere virtudes e defeitos. Entretanto, paira um ar de normalidade sobre todas as safadezas cometidas pelos personagens, que eu chego a me perguntar o que ele quer dizer, realmente, com “viver a vida”.

Viver a Vida é uma novela onde praticamente todos os personagens enganam uns aos outros. O marido trai a esposa com a prima dela, a esposa trai o marido com o cara da academia, o outro troca a companheira de uma vida inteira por uma modelo 30 anos mais jovem , que agora já vive um affair com o sujeito que conheceu no meio do deserto (que corre o risco de ser filho de seu próprio marido), irmãos (gêmeos!) disputam a mesma garota… ufa! E tem muito mais, mas não quero tirar a paciência do leitor com essas picuinhas.

Onde mora o perigo?

Diversos estudos, em especial os conduzidos pelo Prof. Robert B. Cialdini, da Arizona State University, demonstram que temos uma grande tendência a fazer o que a maioria faz – mesmo que seja um comportamento socialmente indesejável. Segundo Cialdini, somos naturalmente maria-vai-com-as-outras*.

Manoel Carlos gasta o seu latim para provar que trair é algo normal, que todo mundo trai todo mundo e não há nada reprovável nisso. Pelo contrário: é até algo bonito, poético. As puladas de cerca ocorrem sempre com o belíssimo pano de fundo da cidade maravilhosa ao entardecer, do alto de uma asa delta, ou nas areias paradisíacas de Búzios, ao som de uma belíssima trilha sonora. Sei lá, sei lá…

Há algum tempo, havia em minha cidade um jornalzinho que circulava entre os colégios, cuja maior atração eram os recadinhos que os alunos postavam uns para os outros. Depois que Aline Moraes interpretou uma jovem lésbica em uma novela, houve uma explosão de recados (românticos) de garotas para garotas. Não estou fazendo juízo de valor no que diz respeito às escolhas sexuais de ninguém. Entretanto, desconfio que muitos desses recados não tinham nada a ver com a sexualidade dessas garotas. Elas apenas queriam ser a Aline Moraes… Imagino que, se a personagem da bela atriz fosse interpretada por Regina Casé, o efeito no jornal teria sido nulo ou completamente inverso.

Mesmo sabendo que o comportamento é uma potente fonte de influência social, geralmente as pessoas que participam de estudos de psicologia social dizem com veemência que o comportamento alheio não influencia o seu próprio. Você aí do outro lado também deve estar dizendo que isso é uma grande besteira, que você não é influenciado por novelas, nem por ninguém. Beleza. Mas, com certeza, você conhece um monte de gente que adora seguir a maioria.

O perigo está na mensagem, repetida diariamente à exaustão, justamente no horário em que a maioria dos televisores sintoniza a rede do plim-plim. Muita gente assimila o comportamento dos personagens como adequado, moderno e normal. A novela de Manoel Carlos é a receita para o fracasso de uma sociedade que tem (ou já teve?) na família o seu mais firme alicerce. Viver a vida, de verdade, é muito mais do que isso. Tô certo ou tô errado?

Leitura recomendada

* Não deixe de ler o brilhante artigo de Rodolfo Araújo onde ele explora o Princípio da Aceitação Social “(…)todo mundo gosta de se sentir integrado à sua comunidade, ou de pertencer a algum grupo. Suas atitudes deverão, sempre que possível, refletir esse sentimento e essa necessidade“.

** Leia também o livro Família Acima de Tudo, onde Stephen Kanitz fala sobre a importância da família.

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