Arrasta-me para o inferno!

“Naquilo que concordamos denominar ‘civilização’ reside inegavelmente um princípio diabólico do qual o homem apenas se deu conta demasiado tarde, quando não era mais possível remediá-lo.”

E. M. Cioran (1973)

Arrasta-me para o Inferno (Drag me to Hell) marca a volta do diretor Sam Raimi ao terror, gênero que o consagrou. Se você não gosta de filmes trash, por favor, não vá ao cinema ou alugue esse filme. Mas não deixe de levar em consideração a profunda reflexão sobre a vida corporativa que essa história pode suscitar.

Christine está prestes a ser promovida. Seu único concorrente é Stu, um novato que pode ter a preferência do chefe por saber “tomar decisões difíceis”. Certo dia, recebe a visita da senhora Ganush, que precisa renovar a hipoteca de sua casa para não ser despejada. Christine consulta o chefe para saber se pode prorrogar sua hipoteca ou não. “Já demos a ela duas extensões. É uma decisão difícil. É você quem sabe”, responde o chefe.

As palavrinhas mágicas “decisão difícil” ecoam na mente da protagonista, que vislumbra aí a oportunidade de mostrar serviço e sacramentar sua promoção. O diretor consegue ilustrar com maestria, em poucos segundos, o dilema moral de Christine: ela tem o poder de prorrogar mais uma vez a hipoteca da velha e humilde senhora ou, por outro lado, negar-lhe o benefício e conquistar, assim, a posição almejada.

É nesse ponto que nós, expectadores, acabamos nos identificando profundamente com a personagem. Esse dilema tão comum, tão rotineiro, tão humano, acontece todos os dias em nossas organizações. Não é a defesa dos interesses do banco, nem o “vestir a camiseta da empresa” que pesa na decisão de Christine. É o olhar esperançoso e sonhador à mesa vazia do futuro “gerente-assistente” que motiva a jovem analista. São seus próprios desejos e interesses individuais que norteiam sua decisão: “Eu sinto muito, mas outra extensão não é possível”, comunica à senhora Ganush.

Não quero cometer nenhum spoiler, mas a partir daí, Christine vai, literalmente, comer o pão que o diabo amassou. Antes de terminar a leitura do artigo, assista ao trailler do filme.

Ora, mas é assim que as coisas funcionam”, você pode estar dizendo aí do outro lado. Eu sei exatamente como as coisas funcionam. Aliás, a gente costuma sempre repetir esse argumento quando temos que tomar decisões como a de Christine. É um mecanismo de auto-proteção que nos ajuda a conviver com nossas escolhas e com as decisões que, invariavelmente, temos que tomar. Mas Christine tinha o poder naquela hora…

Pascal disse certa vez que “nem ao homem mais imparcial do mundo é permitido que se torne juiz em seu próprio caso”. Será que era o caso específico da senhora Ganush que Christine julgou naquele momento ou o seu próprio? Pense nisso.

E você, como se comporta em situações como essa? Que tal compartilhar mais abaixo?

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Spam de currículo

Não sei por que cargas d’água, recebo uma penca de currículos por e-mail diariamente. São mensagens totalmente genéricas, distribuídas aleatoriamente e sem critério algum para milhares de e-mail na internet. Se você recebe SPAMs tradicionais por e-mail, com certeza já deve ter recebido um spam de currículo.

O destino do spam de currículo não pode ser outro além da lixeira do nosso programa de e-mail. Iludido como sou, chego a marcar o remetente como “bloqueado”, para nunca mais receber mensagens dele. No dia seguinte, novos spammers atacam minha caixa de entrada com suas repetitivas mensagens: “segue o meu currículo para uma eventual oportunidade nessa conceituada empresa”. Delete. “Prezado(a) Sr. (a), busco uma oportunidade profissional. Em anexo…”. Delete! “Assunto: CV”. DELETE!!

Spam de currículo não funciona. Ninguém, em sã consciência, analisa um currículo sem procedência, enviado para milhares de outras pessoas – principalmente se você for de uma empresa de comunicação e receber o currículo de um nutricionista.

Entendo que existe uma grande dificuldade para se encontrar emprego, mas essa abordagem de sair enviando cv para qualquer endereço eletrônico vendido em pacotes de “milhões de e-mails” além de antiético, é extremamente irritante. É quase a mesma coisa que entrar em uma corrente que promete transformar 1 real em 1 milhão e sair enviando e-mails para Deus e o mundo.

Qual a saída? A internet, de fato, oferece ótimas oportunidades para as pessoas aparecerem e construírem relações. Ferramentas como o Linkedin e o próprio Administradores possibilitam a prática de networking de qualidade entre profissionais. Vou além: a internet permite que você mostre facetas de sua personalidade e perfil profissional que um currículo padrão jamais conseguiria exibir. Escrever artigos, por exemplo, é uma ótima estratégia para mostrar seu talento e capacidade intelectual – e, no fim das contas, é algo que você pode, inclusive, citar em seu currículo formal.

Se você não tem o perfil para isso, sites especializados de recolocação profissional são uma ótima pedida e funcionam de verdade. Antes de firmar parceria com uma grande empresa de recolocação on-line, cadastrei meu currículo por lá só para testar a eficácia da ferramenta. Fui convidado para entrevistas em várias empresas, e até mesmo para dar aulas.

Independente da alternativa que você escolher para tirar proveito da enorme potencialidade da internet, passe longe daquelas que prometem “retorno rápido e garantido”, como a promessa dos vendedores de listas de e-mail. Se você quer ficar bem na fita, faça o dever de casa direitinho e mostre para o que você veio. Somente dessa forma suas mensagens serão valorizadas ao invés de irem parar na lixeira de seus destinatários.

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Vamos “escultar” mais?

Ao que pesem as críticas, gosto muito de assistir O Aprendiz, reality show comandado pelo badalado administrador e empresário Roberto Justus. É uma pena que não esteja conseguindo acompanhar com afinco a edição atual, pois a Record passa antes uma novela interminável, jogando o programa para depois das 23:30.

Bom, essa edição reúne apenas estudantes universitários das mais diversas áreas. Na semana passada, um dos participantes escreveu um bilhete para a líder de sua equipe, com o objetivo de dar algumas dicas para o melhor andamento da tarefa. Até aí tudo bem. A bronca foi que o tal bilhete foi parar nas mãos do poderoso chefão, Roberto Justus:

“Está faltando novamente ESCULTAR.

Como reza o velho dito, o sujeito perdeu uma bela chance de ficar calado. Ao ler o conteúdo da mensagem na frente dos demais colegas, o apresentador chegou a perguntar se o participante tinha certeza que era universitário, pois sua redação era digna de um semi-analfabeto. É mole?

Já cheguei a comentar aqui no blog sobre a importância de conhecer o mínimo de nossa língua-mãe (vide o post “Menos gordura!”). Nem sei se o cara era um concorrente forte ou não, nem se tinha qualidades que justificassem sua permanência no programa. Não importa. No momento em que ele conseguiu a proeza de escrever “escultar”, não era necessário dizer mais nada. Morreu ali.

De fato, o participante desmoronou. Partiu para a agressão verbal pura e simples contra uma das colegas e se limitou a repetir chavões batidos dos livros de negócios: “é preciso ter foco”.

Justus não se viu diante de outra alternativa a não ser lhe dizer: VOCÊ ESTÁ DEMITIDO!

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Recrutamento e Seleção no Google

Recebi uma pergunta interessantíssima sobre o processo de recrutamento e seleção do Google. Ao contrário da maior parte das grandes empresas, que terceirizam esse processo, o Google abraça essa função internamente, inclusive dando ênfase para a “opinião dos pares” -  isto é, para aquilo que os próprios funcionários pensam sobre seus colegas. Enfim, vale a pena realizar internamente o recrutamento e seleção ou é melhor contar com uma empresa especializada para esse fim?
 
Peter Drucker já alertava que a contratação de um colaborador é uma das atividades gerenciais mais importantes – e também uma das mais negligenciadas. O fato do Google tomar para si essa responsabilidade demonstra, mais uma vez, a lucidez da empresa com relação aos detalhes mais importantes do seu negócio. O sucesso por trás de qualquer processo de seleção depende do conhecimento sobre os requisitos e as competências necessárias para o cargo ao qual se está selecionando candidatos. Também é fundamental selecionar pessoas que compartilhem a visão e filosofia da empresa. Ninguém melhor para selecionar, nesse caso, do que os próprios membros da organização, que não apenas compartilham os valores, mas ajudam a moldar a própria cultura da empresa (um detalhe legal quanto a influência dos próprios funcionários na cultura do Google: o lema "don´t be evil", o mote da filosofia empresariado Google, foi cunhado por Paul Buchheit, o engenheiro por trás do Gmail).
 
É formidável a importância que o Google dá para a opinião dos próprios funcionários. Torna evidente a confiança no colaborador e como a empresa valoriza suas opiniões. Como resultado direto, o funcionário tende a se sentir, cada vez mais, parte da empresa. Também é uma estratégia educativa: ajuda na formação de um contexto gerador de criatividade, pois os próprios membros do grupo opinam na escolha de seus futuros parceiros. Enfim, há um aumento da assertividade da seleção, uma vez que o processo fornece inúmeros indícios e impressões sobre o candidato, o que ajuda, consideravelmente, na decisão final da contratação.
 
Um detalhe: também devemos enxergar esse processo de seleção com uma via de mão dupla: não são apenas as empresas que buscam os melhores candidatos, mas também esses buscam apenas as melhores empresas. A empresa deve ser atrativa e saber reter quem atraiu. Como podemos concluir, o Google executa perfeitamente a atração e retenção de talentos.

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Quero trabalhar no Google!

A maior parte das empresas tradicionais ainda está presa ao “modelo industrial”, caracterizado pela utilização dos princípios tayloristas e fordistas. Na época industrial, as pessoas eram educadas a contrapor o prazer ao dever, colocando sempre esse último em primeiro lugar. Alguns pensadores, como o italiano Domenico De Masi, consideram que tais valores não são mais válidos no mundo de hoje, e que alguns prazeres – como o afeto, o lazer e a criatividade – são também deveres. O prazer da criatividade é um dever. Parece-me estupidamente absurdo tentar impor a pessoas escolarizadas e cultas a mesma forma de administração e liderança criada há mais de 100 anos, voltada para pessoas analfabetas ou com baixíssimo nível de instrução.

O Google é uma empresa muito ciente dessa nova realidade. A filosofia da empresa se volta inteiramente ao cultivo de um ambiente de conhecimento, altamente criativo, que se contrapõe totalmente à organização taylorista, burocrática e impessoal. A grande sacada é dar-se conta que um ambiente de conhecimento tem muito mais a ver com pessoas do que com a própria tecnologia. O clima na empresa é o de um “centro de pesquisa” – o que é ideal para manter acesa a chama da criatividade e o entusiasmo dos colaboradores. De que outra forma  é possível administrar as melhores mentes disponíveis no mercado?

O modelo do Google põe em xeque as organizações tradicionais, ainda ancoradas em práticas antigas que tolhem a liberdade e o espírito criativo da organização.

O resultado disso tudo é uma vantagem competitiva sólida e extremamente difícil de ser superada. A empresa atrai os melhores talentos do mundo (foi apontada como a empresa mais desejada para se trabalhar nos Estados Unidos, segundo uma pesquisa da Revista Fortune com mais de 5000 estudantes de MBA dos EUA). O estímulo dentro da empresa é que essas pessoas simplesmente dêem vazão às suas forças criativas em projetos que, não necessariamente, visam lucro. Daí as grandes invenções como o Orkut, o Google Earth, entre tantos outros, que a princípio não tinham um plano de geração de receitas. No fundo, as pessoas trabalham no Google porque realmente gostam do que fazem, e a empresa lhes devolve da melhor forma possível: excelente remuneração, tempo livre para projetos pessoais, além das inúmeras “mordomias”, como as comidinhas, o pebolim e até massagistas.

Você não se comprometeria ao máximo em uma empresa dessas?

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Desperdício de talento

Giuseppe nasceu para vender. Está sempre comprando e vendendo alguma coisa. Um comerciante nato. O cara também é artista: toca muito bem uma porção de instrumentos e tem sua própria banda.

O pai de Giuseppe é funcionário público e a mãe também. Um casal conservador e totalmente avesso a riscos. Martelaram a vida toda na cabeça do garoto que ele deveria se preparar para fazer concurso público.

Adivinha qual carreira Giuseppe escolheu seguir?

Se a primeira coisa que lhe veio à mente foi Direito, BINGO!, você acertou!

Recentemente, Giuseppe se formou. É o mais novo bacharel em Direito do pedaço. Agora tá naquela de não saber o que fazer com o canudo: “Faço a OAB? Faço uma pós? Faço um curso preparatório para concurso? O que eu faço?”

Seth Godin, badalado autor de livros de comunicação e marketing, lançou há pouco um livro bem fininho, chamado O MELHOR DO MUNDO.  Não tem nada a ver com os seus livros anteriores e, embora tenha cara, também não tem nada de auto-ajuda. O livro é breve e vai direto ao ponto: para ser o melhor do mundo (não do mundo todo, mas do SEU mundo, o universo onde VOCÊ vive), o cara deve saber persistir em algo que vale a pena e saber desistir quando embarcar em uma canoa furada.

Temos o costume de exaltar quem persiste e conquista algo – e também de olhar com maus olhos quem desiste. Acontece que desistir faz parte do processo de vencer.

Quando me pediu conselho, foi exatamente isso que disse pra ele. Nossas escolhas devem sempre se alinhar com nossas inclinações, com nossos pontos fortes. Agir de maneira contrária é nadar contra a maré. Pensar que perdeu 5 anos da vida fazendo o curso errado também é
bobagem. Perder tempo é passar a vida toda fazendo algo que você não
nasceu para fazer, que você não gosta e não vê sentido. Giuseppe é muito jovem: tem apenas 22 anos e uma vida pela frente.

Quanto mais cedo chutarmos o pau da barraca, melhor – é mais fácil para ajustar as velas e tomar o rumo certo.

Pense nisso!

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A vida (também) começa aos 40

Previously on Administre-se: o post da semana passada, tarde demais para começar, deu o que falar. Muitos leitores relataram suas empreitadas depois dos 30, 40, e até mesmo 60 anos, contrariando totalmente o senso-comum de que só devemos encarar os desafios típicos de cada faixa-etária.

Essa semana, para encerrar o assunto, entrevistei um cara que resolveu se reinventar depois dos 40. Andrei Giacomini é servidor público federal do TRE-RS, formado em Informática pela PUC-RS. Apesar da carreira totalmente estável e sem riscos no horizonte, Andrei resolveu cursar Administração na UFRGS. Confira como está sendo essa experiência:

Por que você decidiu cursar Administração, já tendo feito um curso superior e conquistado uma carreira estável?
Por dois motivos. Primeiro, aa carreira que estou e detentor de um cargo de gestão, senti a falta de embasamento teórico para coordenar um grupo de pessoas e implementar as novas teorias (Gestão por Projetos, Qualidade no Serviço Público, Gestão de Desempenho, entre outras) que estão sendo implementadas agora no serviço público. Segundo, o curso de Administração é o que melhor prepara para outras carreiras, e pretendo seguir a de Gestor de Estado mais na frente.

O que as pessoas disseram quando você decidiu fazer um novo curso de graduação nessa altura do campeonato?
Complicado. De fato, tive o apoio somente de minha esposa e
filhos. Todos os demais acharam uma aventura desnecessária, diziam que eu não aguentaria o "tranco", que eu não me adaptaria a conviver no meio de jovens, enfim todos acharam que era uma loucura e um desperdício de tempo.

E como é essa convivência com jovens de 18, 20 anos?
Talvez esta tenha sido a melhor e maior surpresa. É muito bom ver que jovens, com a metade da minha idade ou menos, me aceitaram como sendo um deles. O convívio com a minha turma é de igual para igual, inclusive não tenho nenhum privilégio pelo fato de ser mais velho.
Claro que este respeito se conquista mas noto que os jovens de hoje não têm tanto preconceito com os "veteranos".

O que você extrai de melhor da faculdade?
Como venho de uma área estritamente técnica, quase toda a teoria que estou vendo agora é novidade. O fato de ter uma boa bagagem de vida me faz absorver com mais facilidade os conceitos e, como estou fazendo um curso que escolhi após ter amadurecido, isso me faz estar completamente è vontade, sentindo prazer em estar na aula.

Pelo fato de você ser mais velho que seus colegas, acha que contribui com a turma?
É muito estranho ver que quase todos os exemplos que os professores dão em aula eu vivi e isso me permite agregar comentários sobre os assuntos em aula. Sempre tendo cuidado para não ser o chato da aula que quer demonstrar que sabe tudo ou mais que os outros… (creio que isso foi fundamental para melhorar a convivência com o grupo!)

Você aconselha alguém a começar um curso depois dos 30, 40…?
Creio que todos deveriam ter esta experiência. É fascinante comparar a minha experiência no primeiro curso com a que estou tendo agora. A forma de ver a realidade, principalmente na Administração que é uma ciência aplicada, é muito intensa e ainda tem um bônus: conviver com jovens adolescentes te permite entender melhor os próprios filhos.

Em que esse novo curso acrescenta em termos práticos à sua carreira e ao seu currículo?
Humm… Imagine a vantagem que tenho frente aos administradores formados há 20 ou 30 anos atrás. Eu tenho a mesma bagagem de vida e estou com as novas teorias da administração "fresquinhas". Vejo isto como um imenso diferencial.

E o que os seus superiores acham dessa sua empreitada?
Creio que este é o maior benefício de estar no serviço público. Tenho um bom apoio dos meus superiores, até porque trago a teoria atual para dentro do local de trabalho.

Valeu pela entrevista, Andrei!
Eu é que agradeço! Fico muito feliz em poder colaborar com esta tua iniciativa, pois sempre tentei expressar a felicidade que sinto por ter feito esta opção num momento tão apropriado da minha vida. É impressionante como é possível remoçar internamente sem cair no ridículo de querer demonstrar para os outros "olhem como sou jovem!". O melhor é ver que estou fazendo um bem para mim, e isso gera reflexos positivos em todos os meus ambientes de convivência – família, trabalho, faculdade…

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Tarde demais para começar?

Essa rolou na comunidade de Administração do Orkut. Um dos usuários escutou os seguintes comentários de um “especialista” na CBN:

"(…) Dos 18 aos 26 anos, é a fase do aprendizado, dos 27 aos 35 anos é a fase da coragem, quando o indivíduo trabalha. Dos 35 aos 45 anos é a fase da colheita, quando o indivíduo colhe os frutos do trabalho, e dos 45 em diante, é a fase da experiência, onde o indivíduo se considera com o vigor da idade de 25 anos, porém com experiência, mas já não encontra tanto campo para trabalho. Pessoas que estão com 26 anos e estão procurando estágio, estão atrasadas".

O comentário do consultor deixou o cara extremamente preocupado e desanimado, pois ele tem 30 anos e começou Administração há pouco tempo.

Tarde demais para começar?

Ora, o “especialista” generalizou pra caramba! Quer algo mais senso-comum que isso? Se você tem 30, 40 ou 60 anos e for escutar esses conselhos, melhor comprar logo uma caixa de anti-depressivos!

Como professor antes dos 30, tive muitos alunos de administração que tinham o dobro ou mais que a minha idade. Os caras eram feras, acrescentavam muito nas aulas e tiravam grande proveito da faculdade.

Não devemos enxergar a idade avançada como uma desvantagem para se iniciar um novo curso ou uma nova carreira, porque não é. Tem pontos negativos? Tem!  Mas toda a história de vida e experiência que a pessoa tem irão contribuir para que ela extraia ainda mais do curso.

No próximo post, vou publicar uma pequena entrevista que fiz com um desses alunos sobre a sua experiência de começar o curso de Administração depois dos 40.

Enquanto isso, comentem! ;-)

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Desafiem os calouros!

Professor tem mania de subestimar a capacidade de seus alunos. Cansei de ouvir colegas professores se queixando de alunos do primeiro semestre. “São adolescentes”, “odeio dar aula para os calouros”, entre outros comentários do tipo.

Penso justamente o contrário. Os alunos do primeiro semestre, por mais que estejam saindo da puberdade, entram na faculdade cheios de gás e entusiasmo. A última coisa que eles precisam é de um professor que não acredita em seu potencial e que não goste de dar aulas no ritmo adequado para essa turma. O primeiro semestre é essencial, pois é o encontro do aluno com a nova realidade.

Muitas vezes, os alunos do primeiro semestre têm muito mais a oferecer do que os alunos dos semestres seguintes. Eles ainda não caíram naquela de empurrar com a barriga e fazer de qualquer jeito. O aluno do primeiro semestre que consegue manter o pique durante o resto do curso será, sem dúvidas, um excelente profissional.

Professores de “Introdução à Administração” costumam abordar, de forma introdutória, tudo o que o cara vai ver no semestre seguinte em TGA (Teoria Geral da Administração). Fala sobre Fayol, Taylor, passa o filminho do Chaplin (Tempos Modernos), divide a Administração em “escolas”, dando aquela idéia de que a história acontece em trajetória linear e progressiva. Se o sujeito vai ver tudo de novo em TGA, por que não aproveitar a oportunidade para apresentar ao aluno o que é, de fato, a Administração?

Em Introdução, costumo passar um exercício que outros professores só adotam em semestres mais adiantados: montar uma empresa. A turma se divide em grupos, cada grupo idealiza uma empresa. Ao longo do semestre, os alunos colocam em prática e adquirem conhecimentos sobre tudo o que um administrador precisa dominar: marketing, finanças, estratégia, gestão de pessoas, TI, etc. Aprendem a ver o todo e as partes que o compõem.

Além de estimular a criatividade e a atitude empreendedora, a atividade também permite que os alunos exercitem suas habilidades de comunicação, liderança, negociação, busca de informações e de pensar de forma inovadora.

Os trabalhos realizados deixam qualquer um de queixo caído. Surpreendem pela qualidade, profundidade das informações e por ir muito além de qualquer expectativa. Tudo isso feito por garotos de 17, 18 anos.

No fim das contas, todos têm a satisfação de terem participado de um projeto que eles mesmos criaram. O conhecimento adquirido foi construído não apenas de forma individual, mas, sobretudo, de forma coletiva, participativa. Sentem que fizeram aquilo por eles mesmos, e não por se tratar de uma mera exigência acadêmica.

Tenha sempre em mente: desafiar é a melhor forma de estimular alguém a dar o seu melhor.

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Muito barulho por nada

Outliers – Fora de Série, do jornalista Malcolm Gladwell, está sendo bem badalado pela mídia. Já foi matéria de capa de muitas revistas, e tem muita gente por aí achando que o canadense descobriu a pólvora, que finalmente alguém achou uma justificativa plausível para explicar o mecanismo do sucesso.

Pura balela. Conheço o Gladwell de outros carnavais. Não há nada de novo em Outliers, assim como não há em Blink e The Tipping Point, seus dois outros livros. Gladwell é um daqueles escritores que tem a habilidade de reescrever o que já foi dito por outros e soar original. Um belo compilador, sem idéias novas.

Outliers, um livro que tenta explicar o sucesso, serve apenas de consolo para o “fracasso” de quem não chegou lá. Todo o argumento de Gladwell se baseia apenas no “se” – e o resto é pura encheção de linguiça. Se os Beatles não tivessem encontrado um fulano que gostou deles, não teriam estourado. Se em 68 a escola de Bill Gates não tivesse comprado um computador, ele hoje não seria o Bill Gates que conhecemos. Nessa linha de raciocínio, se Lula não tivesse perdido o mindinho, não teria se aposentado por invalidez, e teria continuado no torno, ao invés de chegar ao trono.

Com alguns estudos estatísticos de terceiros, Gladwell pretende emprestar força aos seus argumentos. Por exemplo: atletas que nascem nos três primeiros meses do ano têm mais chance de sucesso, pois durante a infância e a adolescência são maiores e mais fortes do que aqueles que nasceram no mesmo ano, mas nos meses seguintes. Ohhh! Quem nasceu em dezembro, como eu, não precisa perder tempo com essas estatísticas. Sempre fui dos menores da turma, e dos últimos a serem escolhidos pro time de futebol nas aulas de educação física. Se minha mãe tivesse segurado a gravidez por mais duas semanas, talvez hoje eu fosse um atleta e adorasse esportes, diria o sábio Malcolm Gladwell.

Lógico que há trechos interessantes no livro, como o estudo que aponta que a excelência em qualquer atividade requer um mínimo de 10 mil horas de preparação – e isso vale para gênios como Mozart ou para reles mortais como eu e você. Mas tem alguma novidade nisso aí? Às vezes me impressiono com o esforço científico que alguns fazem para comprovar obviedades do senso comum.

Para terminar no tom de Outliers, se você já leu alguma reportagem sobre esse livro, ou até mesmo esse post, não perca seu tempo. Se, mesmo assim, você ficar curioso, depois não diga que não avisei…

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