Arrasta-me para o inferno!
2009
E. M. Cioran (1973)
Arrasta-me para o Inferno (Drag me to Hell) marca a volta do diretor Sam Raimi ao terror, gênero que o consagrou. Se você não gosta de filmes trash, por favor, não vá ao cinema ou alugue esse filme. Mas não deixe de levar em consideração a profunda reflexão sobre a vida corporativa que essa história pode suscitar.
Christine está prestes a ser promovida. Seu único concorrente é Stu, um novato que pode ter a preferência do chefe por saber “tomar decisões difíceis”. Certo dia, recebe a visita da senhora Ganush, que precisa renovar a hipoteca de sua casa para não ser despejada. Christine consulta o chefe para saber se pode prorrogar sua hipoteca ou não. “Já demos a ela duas extensões. É uma decisão difícil. É você quem sabe”, responde o chefe.
As palavrinhas mágicas “decisão difícil” ecoam na mente da protagonista, que vislumbra aí a oportunidade de mostrar serviço e sacramentar sua promoção. O diretor consegue ilustrar com maestria, em poucos segundos, o dilema moral de Christine: ela tem o poder de prorrogar mais uma vez a hipoteca da velha e humilde senhora ou, por outro lado, negar-lhe o benefício e conquistar, assim, a posição almejada.
É nesse ponto que nós, expectadores, acabamos nos identificando profundamente com a personagem. Esse dilema tão comum, tão rotineiro, tão humano, acontece todos os dias em nossas organizações. Não é a defesa dos interesses do banco, nem o “vestir a camiseta da empresa” que pesa na decisão de Christine. É o olhar esperançoso e sonhador à mesa vazia do futuro “gerente-assistente” que motiva a jovem analista. São seus próprios desejos e interesses individuais que norteiam sua decisão: “Eu sinto muito, mas outra extensão não é possível”, comunica à senhora Ganush.
Não quero cometer nenhum spoiler, mas a partir daí, Christine vai, literalmente, comer o pão que o diabo amassou. Antes de terminar a leitura do artigo, assista ao trailler do filme.
“Ora, mas é assim que as coisas funcionam”, você pode estar dizendo aí do outro lado. Eu sei exatamente como as coisas funcionam. Aliás, a gente costuma sempre repetir esse argumento quando temos que tomar decisões como a de Christine. É um mecanismo de auto-proteção que nos ajuda a conviver com nossas escolhas e com as decisões que, invariavelmente, temos que tomar. Mas Christine tinha o poder naquela hora…
Pascal disse certa vez que “nem ao homem mais imparcial do mundo é permitido que se torne juiz em seu próprio caso”. Será que era o caso específico da senhora Ganush que Christine julgou naquele momento ou o seu próprio? Pense nisso.
E você, como se comporta em situações como essa? Que tal compartilhar mais abaixo?


Commentário