O código do discurso de Viver a Vida

09 mar
2010

O recente artigo Como Viver a Vida, segundo a Globo teve uma enorme repercussão. Somente aqui no site da Você S/A, foram mais de 80 comentários. O mesmo artigo foi repercutido em vários sites da internet e, ultimamente, tenho recebido e-mails de pessoas que leram o artigo publicado em jornais de diversas cidades brasileiras. Fico extremamente feliz que esse despretensioso texto esteja alimentando uma rica discussão Brasil afora.

Bom, não é a primeira vez que escrevo um artigo para comentar um anterior (vide essa discussão interessante sobre funcionalismo público e crescimento econômico ). Porém, diante da celeuma em torno do artigo sobre a novela global , cá estou eu novamente.

Antes de prosseguir, devo alertar o leitor que irei (re)visitar alguns autores densos, o que deverá tornar a narrativa desse artigo um pouco menos descontraída que meu estilo habitual.

No fim das contas, qual o problema com Viver a Vida ou com a nossa indústria do entretenimento de maneira geral?

Primeiramente, vamos falar de necessidades. Herbert Marcuse diz que combinamos duas categorias de necessidades: as falsas e as verdadeiras. As falsas são aquelas superimpostas ao indivíduo por interesses sociais particulares ao reprimi-lo. A maioria de nossas necessidades comuns, segundo Marcuse, é desse tipo: “descansar, distrair-se e consumir de acordo com os anúncios, amar e odiar o que os outros amam e odeiam”.  Marcuse considera que o indivíduo (comum) não exerce controle algum sobre essas necessidades – elas agregam um conteúdo e uma função sociais determinados por forças externas alheias ao indivíduo.

A grande dificuldade reside justamente em apontar o que é falso e o que é verdadeiro: “como podem as pessoas que tenham sido objeto de dominação eficaz e produtiva criar elas próprias as condições de liberdade?“, questionaria Marcuse. A libertação é dependente da consciência da servidão, mas esse momento de consciência é sempre impedido pela predominância de necessidades falsas que se tornaram próprias do indivíduo.

Em um dos capítulos da ótima coletânea Matrix: bem-vindo ao deserto do real, o esloveno Slavoj Zizek relembra uma passagem de “Le prix du progrès”, um dos fragmentos que conclui A dialética do Iluminismo, de Adorno e Horkheimer. No texto, os autores citam o argumento de um fisiologista francês, Pierre Flourens, contra a anestesia médica à base de clorofórmio, a qual, segundo o fisiologista, funciona somente na rede neuronial da memória, ou seja: “enquanto somos cortados vivos na mesa de cirurgia, sentimos a dor terrível total; mas mais tarde, após acordarmos, não nos lembramos dela”. Essa seria a metáfora perfeita do destino da razão baseado na repressão da natureza em si: nós sentimos a dor, mas, em virtude da repressão, não nos lembramos dela. A alienação é a nossa morfina, a nossa anestesia.

Em resposta ao colega Alvaro Augusto, cheguei a comentar:

Ao que pesem minhas diferenças com os pensadores de esquerda, li boa parte deles. Michel Foucault, por exemplo, tinha uma grande preocupação com o “discurso”. O que está implícito nos discursos que lemos e ouvimos diariamente? Dessa indagação nasceu a riquíssima obra A ORDEM DO DISCURSO.

“Mas o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e seus discursos proliferarem indefinidamente?”, interpela o próprio Foucalt. Além de um convite à reflexão, Foucalt nos conduz por uma jornada onde ele mesmo revela que os discursos fazem parte de um mecanismo de manutenção – ou, melhor, perpetuação – do poder. “Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder”.

Foucalt aponta que o discurso não é apenas o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo que se luta, “o poder do qual nos queremos apoderar”.

O que quero dizer com isso? É simples: o script segue os desejos do autor de modelar a sociedade a partir de sua própria visão de mundo. Não é meramente uma ficção bobinha. Quando uma das médicas da novela pergunta para a sua colega se ela vai esperar a sua paciente morrer de câncer para ter um romance com o marido dela, o autor está passando o seu recado sutilmente – seja ele qual for, defenda ele o interesse que for.

Enfim, meus amigos, eis a importância de refletirmos acerca dos discursos que estão na moda em nossa sociedade atual. Qual código está inscrito nos discursos daquilo que assistimos, ouvimos, proferimos e repetimos por aí? O que estamos ajudando a formar ou consolidar? Que poder simbólico está representado nesses discursos?

Parafraseando Bourdieu: a grande questão é saber descobrir esse poder simbólico onde ele se deixa ver menos…

Até a próxima!

Post to Twitter Tweet This Post

Obedecendo ao guru da autoajuda

10 fev
2010

Ênio mandou botar as mãos para cima...

Imagine-se nesta palestra. O guru estava vestido com um belo terno e uma discreta gravata. À sua frente, a platéia: mais de 4 mil executivos das principais empresas brasileiras e algumas internacionais. O guru guiava a todos com a voz típica de um hipnotizador, lenta e suave:

“Feche os seus olhos. Respire fundo. Imagine como será a sua vida no próximo ano. Agora imagine sua vida daqui a 5 anos. Como você se enxerga? Você é uma pessoa bem sucedida? Está feliz?”

Você, com o seu aguçado senso de autocrítica, permanece estático, de olhos abertos, admirando o espetáculo. Olha para os lados, vê aquela multidão de homens de negócios com os olhos fechados, reféns do guru da autoajuda, e não contém o risinho sarcástico que se desenha em seus lábios.

Quanto tempo você permaneceria nessa palestra? Eu passei dez minutos – ou menos.

O guru da autoajuda em questão era o idolatrado “Spencer Johnson, M.D.”, autor de um dos maiores best sellers corporativos de todos os tempos, Quem mexeu no meu queijo?, livreco de 100 páginas impressas em Times New Roman tamanho 17, e com a profundidade de um prato de sopa. Exemplo de um dos preciosos conselhos de Johnson, M.D., pelos quais as pessoas compram seus livros e pagam por suas palestras: “se você não mudar, você morrerá”. Céus! Isso chega a ser pior que a baboseira cósmica de O Segredo, outra pérola da auto-ajuda.

Como nos sujeitamos a esse tipo de engodo?

Sou um verdadeiro gato escaldado no assunto. Acredite em mim. Perdi a conta de quantas palestras já assisti. Nas primeiras, entrava no clima. Se o palestrante mandasse abraçar o ilustre desconhecido ao lado, eu abraçava. Se o cara falasse “levantem as mãos e gritem ‘eu sou um vencedor’”, eu obedecia, levantava os braços e repetia a ladainha. No final, ainda comprava as fitas de vídeo com a mesma palestra, para não esquecer jamais os ensinamentos aprendidos naquele dia. Não me levem a mal, eu tinha catorze anos nessa época…
À medida que o tempo passa e nos aprofundamos em nossos temas de interesse, inevitavelmente, ficamos mais exigentes. Ou isso ocorre ou não estamos nos dedicando o suficiente. A palavra-chave desse processo é aprofundar. Devemos nos permitir mergulhar mais fundo nas águas do conhecimento. É como requintar o paladar. Não dá para comparar fast food com alta gastronomia.

De qualquer forma, o fato é que muita gente acredita – e investe – em livros e palestras do gênero. Se assim não o fosse, a auto-ajuda não seria um dos filões mais rentáveis da indústria livreira, nem os eventos empresariais contariam com tantos gurus como Spencer Johnson & companhia.

Enfim, gostaria de saber o que vocês acham desse assunto, como se comportam em palestras do gênero, se apreciam, acreditam – ou se sou só eu o complicado…

Leitura recomendada

Rodolfo Araújo escreveu um dos artigos mais originais e contundentes sobre esse tipo de literatura, batizado criativamente de O nascimento do auto-atrapalha. Ele resume a falácia dos livros a uma única lição: sucesso é uma questão de vontade e genialidade. Depois de ler o livro de autoajuda você resolve a questão da vontade, porque aí passa a querer ser um sucesso. Mas, se depois disso você não vira um sucesso, é porque a outra parte da fórmula está errada. É quando você descobre – ou ao menos deveria descobrir – que não é um gênio.

Alvaro Augusto despedaçou o livro de Spencer Johnson no artigo Quem mexeu no meu queijo: uma análise crítica. Além das críticas à obra, o Alvaro alerta os leitores a não levarem tão a sério as letrinhas que acompanham o nome dos autores, como MD, PhD, etc.

Post to Twitter Tweet This Post

Como Viver a Vida, segundo a Globo

20 jan
2010

É fato: as novelas da Globo e seus programas de grande audiência continuam ditando normas, valores e costumes. Volta e meia ouvimos alguém soltar famosos bordões como “hare baba”, “tô certo ou tô errado?”, “né brinquedo não”, “ishalá”, e outros consagrados pelos folhetins globais.

Antes que alguém levante a mão para perguntar, esse texto tem, sim, muito a ver com Administração. Qualquer evento que influencie, direta ou indiretamente, o nosso comportamento é extremamente importante para a forma como conduzimos os nossos negócios. Não é à toa que os grandes anunciantes disputam a peso de ouro o horário nobre da televisão brasileira – bem como os próprios atores. Da mesma forma, as grifes (re)direcionam suas coleções aos estilos exibidos pelas belas e influentes atrizes das novelas, mesmo que essas se passem em lugares exóticos como Índia e Marrocos, ou genuinamente brasileiros como Barretos, Rio e São Paulo. Até pouco tempo atrás, muitas moças estavam usando parte do sutiã à mostra, para imitar o modelito de Norminha, a simpática – e faceira – personagem interpretada recentemente por Dira Paes. Novelas ditam modas e, como administradores, devemos estar atentos.

Espanta-me essa última, que traz o curioso título de “Viver a Vida”. Apesar de apresentar depoimentos emocionantes de pessoas reais que superaram grandes problemas no final dos episódios, Viver a Vida dá um show de deturpação de valores do começo ao fim de cada capítulo.

Normalmente, as obras de ficção dividem claramente as pessoas entre boas e más, o certo e o errado são evidentes, e nos colocamos a torcer pelo sucesso do protagonista e o castigo dos vilões, como o fizemos em A Favorita, com o duelo entre Donatela e Flora.

Na novela de Manoel Carlos, esse dualismo não existe. Com a desculpa de aproximar seus personagens da realidade, o autor lhes confere virtudes e defeitos. Entretanto, paira um ar de normalidade sobre todas as safadezas cometidas pelos personagens, que eu chego a me perguntar o que ele quer dizer, realmente, com “viver a vida”.

Viver a Vida é uma novela onde praticamente todos os personagens enganam uns aos outros. O marido trai a esposa com a prima dela, a esposa trai o marido com o cara da academia, o outro troca a companheira de uma vida inteira por uma modelo 30 anos mais jovem , que agora já vive um affair com o sujeito que conheceu no meio do deserto (que corre o risco de ser filho de seu próprio marido), irmãos (gêmeos!) disputam a mesma garota… ufa! E tem muito mais, mas não quero tirar a paciência do leitor com essas picuinhas.

Onde mora o perigo?

Diversos estudos, em especial os conduzidos pelo Prof. Robert B. Cialdini, da Arizona State University, demonstram que temos uma grande tendência a fazer o que a maioria faz – mesmo que seja um comportamento socialmente indesejável. Segundo Cialdini, somos naturalmente maria-vai-com-as-outras*.

Manoel Carlos gasta o seu latim para provar que trair é algo normal, que todo mundo trai todo mundo e não há nada reprovável nisso. Pelo contrário: é até algo bonito, poético. As puladas de cerca ocorrem sempre com o belíssimo pano de fundo da cidade maravilhosa ao entardecer, do alto de uma asa delta, ou nas areias paradisíacas de Búzios, ao som de uma belíssima trilha sonora. Sei lá, sei lá…

Há algum tempo, havia em minha cidade um jornalzinho que circulava entre os colégios, cuja maior atração eram os recadinhos que os alunos postavam uns para os outros. Depois que Aline Moraes interpretou uma jovem lésbica em uma novela, houve uma explosão de recados (românticos) de garotas para garotas. Não estou fazendo juízo de valor no que diz respeito às escolhas sexuais de ninguém. Entretanto, desconfio que muitos desses recados não tinham nada a ver com a sexualidade dessas garotas. Elas apenas queriam ser a Aline Moraes… Imagino que, se a personagem da bela atriz fosse interpretada por Regina Casé, o efeito no jornal teria sido nulo ou completamente inverso.

Mesmo sabendo que o comportamento é uma potente fonte de influência social, geralmente as pessoas que participam de estudos de psicologia social dizem com veemência que o comportamento alheio não influencia o seu próprio. Você aí do outro lado também deve estar dizendo que isso é uma grande besteira, que você não é influenciado por novelas, nem por ninguém. Beleza. Mas, com certeza, você conhece um monte de gente que adora seguir a maioria.

O perigo está na mensagem, repetida diariamente à exaustão, justamente no horário em que a maioria dos televisores sintoniza a rede do plim-plim. Muita gente assimila o comportamento dos personagens como adequado, moderno e normal. A novela de Manoel Carlos é a receita para o fracasso de uma sociedade que tem (ou já teve?) na família o seu mais firme alicerce. Viver a vida, de verdade, é muito mais do que isso. Tô certo ou tô errado?

Leitura recomendada

* Não deixe de ler o brilhante artigo de Rodolfo Araújo onde ele explora o Princípio da Aceitação Social “(…)todo mundo gosta de se sentir integrado à sua comunidade, ou de pertencer a algum grupo. Suas atitudes deverão, sempre que possível, refletir esse sentimento e essa necessidade“.

** Leia também o livro Família Acima de Tudo, onde Stephen Kanitz fala sobre a importância da família.

Post to Twitter Tweet This Post

Mídia indoor no lugar errado

12 jan
2010

Nos últimos tempos, temos visto uma explosão da mídia indoor – formatos de divulgação adotados dentro de estabelecimentos comerciais, elevadores, salas de espera e, até mesmo, restaurantes. Tem sido um bom negócio para as agências, anunciantes e, também, para as empresas que alugam seus espaços para disponibilizar os equipamentos necessários para a veiculação das propagandas – normalmente, um monitor de LCD.

Acredito na eficácia da mídia indoor. Aparelhos de TV tem o poder natural de prender nossa atenção. Quando estamos entediados em uma sala de espera, por exemplo, nossos olhos repousam naturalmente em qualquer aparato que apresente imagens em movimento. Não lembro de ter consumido algum produto ou serviço divulgados nesse formato, mas com certeza as marcas estão guardadinhas no fundo do meu subconsciente, esperando o gatilho adequado para que eu me recorde delas.

Entretanto, há lugares e lugares para se colocar um monitor de LCD e veicular propagandas. Outro dia, fui a um conceituado restaurante japonês de minha cidade, daqueles que capricham em tudo: atendimento, decoração, música ambiente, iluminação, qualidade dos pratos, enfim: quase tudo perfeito. A única coisa que incomodava era o inconveniente aparelho de TV com os insistentes – e repetitivos – comerciais.

Os donos do restaurante foram tão cuidadosos em criar uma atmosfera singular em seu estabelecimento, mas não se ligaram ao ceder seu espaço para a empresa de mídia indoor. O que as mensagens comerciais fazem é justamente tirar o cliente daquele pequeno universo tão bem concebido: “Ei, esqueça esse sushi! Preste atenção em mim!”, “Olá! Você já conhece os serviços da empresa XYZ?”, “Venha malhar na Academia PQRS”…

Aqui já não entro no mérito da eficácia desse formato de mídia. Questiono apenas se ele é adequado para qualquer ambiente. Será que vale a pena comprometer a experiência de consumo de nossos clientes para faturar um pouco mais no fim do mês?

O que vocês acham?

Post to Twitter Tweet This Post

Enxergar o caminho

29 dez
2009

Outro dia um ex-aluno me enviou um e-mail dizendo que queria investir em sua própria educação no próximo ano, e solicitava algumas sugestões de cursos e treinamentos. O único porém é que tinha de ser algo com retorno imediato, para que o valor investido fosse recuperado o mais rápido possível.

Seria realmente ótimo que as coisas funcionassem assim: você acaba de participar de um treinamento em vendas e – ZÁS! – no fim do mês seu contracheque já vem mais gordo.  Depois de terminar seu curso de MBA, imediatamente receber um aumento de 25%. Infelizmente, demanda-se um pouco mais de tempo para se obter o retorno – pelo menos do ponto de vista financeiro – de nossos investimentos em educação.

Expliquei isso ao rapaz e sugeri que ele fizesse um curso de oratória, afinal todo administrador precisa saber se comunicar e, boa parte do tempo, falar em público. “Se eu fizer esse curso, você acha que eu posso recuperar o investimento em, pelo menos, uns dois meses?”, perguntou logo em seguida. Como havia sido muito claro na primeira resposta, resolvi ser mais enigmático e encarnar o Mestre dos Magos na segunda. Segue um trecho do e-mail que lhe enviei:

Havia um jovem garoto que desejava muito ser um exímio lutador de Kung-Fu. Seu desejo era o de igualar o seu mestre – e um dia vir a superá-lo. Todos os dias, acordava muito cedo para ir ao templo Shaolin praticar. Como todas as crianças de sua idade, o jovem garoto era muito impaciente, queria logo atingir o nível do mestre.

- Mestre, se eu treinar 5 horas seguidas por dia, em quanto tempo chegarei ao seu nível? – perguntou o garoto ao seu professor.
- 10 anos! – respondeu rispidamente o velho mestre.
- E se eu treinar mais tempo, 8 horas por dia?
- 15 anos!
- E se eu treinar 12 horas por dia, só me dedicando ao Kung-Fu?
- 30 anos!
- Mas como é possível? Quanto mais tempo pretendo me dedicar, maior o prazo para chegar ao seu nível?
- Quando se tem um olho fixo no objetivo, resta apenas um para enxergar o caminho.

Nenhum treinamento, por melhor que seja, irá resultar em mais dinheiro na sua conta no fim de semana seguinte. Aliás, quando falamos em EDUCAÇÃO, devemos ir muito além do sentido instrumental que o termo pode suscitar (exemplo: fazer um curso para ganhar mais). Educação é muito mais que um mero instrumento. Quando aprendemos algo, aprendemos para a vida inteira, e não apenas para o desempenho de alguma atividade em curto prazo. Adquirimos conhecimentos e habilidades que irão se conectar a outros conhecimentos e habilidades, a outros e a outros…, ampliando nossa própria consciência e visão de mundo.

Os livros de administração e de outras disciplinas relacionadas ao mundo dos negócios nos ensinam o valor do foco em resultados, da importância de se traçar metas e objetivos para se atingir o sucesso na vida profissional e pessoal. Eles estão certos e não estou aqui para desmenti-los. O estabelecimento de metas, por exemplo, é uma forma inteligente e pragmática de estimular e proporcionar o crescimento em qualquer área de atuação. Terminou a primeira fase do jogo? Passe pare a seguinte. Conquistou a faixa amarela? Hora de conseguir a azul. Terminou a faculdade? Siga para a pós-graduação. Foi promovido? Continue em direção ao topo.

E, de fato, vamos seguindo, com ânsia, com pressa, um degrau após o outro, sempre com a ilusão de que existe um ponto imaginário que indique que “chegamos lá”, que a vida se estende como uma imensa linha reta, ou como um plano cartesiano, onde o eixo das abscissas (x) representa o tempo e o das ordenadas (y) as nossas conquistas. A vida não é um gráfico. Se assim o fosse, a cada coordenada (x,y) alcançada, em um momento de reflexão, faríamos a seguinte e profunda pergunta: e daí?

Não podemos apenas nos agarrar desesperadamente às nossas metas e esquecer de observar o “caminho”, a senda que traçamos ao longo da vida. É nessa jornada que estão guardados os verdadeiros tesouros que tanto buscamos.

Notou como os últimos 10 anos passaram voando? Que na próxima década tenhamos a sabedoria de atingir nossos objetivos e, ao mesmo tempo, manter nossos olhos abertos e atentos ao caminho. Um feliz 2010 a todos!

Post to Twitter Tweet This Post

Satisfação garantida – ou o seu dinheiro de volta

09 dez
2009

Você já deve ter cansado de ver essa expressão estampada em muitos anúncios por aí: “Satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta”. Quantas vezes você realmente já teve o seu dinheiro de volta quando um produto ou serviço não atenderam às suas expectativas?

Comigo, apenas uma. E foi na semana passada.

Em visita recente a Nova York, seguindo recomendações de amigos, fui jantar no famoso restaurante Planet Hollywood. Trata-se, realmente, de uma experiência singular – a começar pela decoração do local, repleta de fotos, roupas, itens de cenário, figurinos e adereços de grandes sucessos do cinema.

Os mesmos amigos que recomendaram o restaurante  disseram que eu não poderia deixar de provar as deliciosas BBQ Pork Ribs, umas costelinhas de porco preparadas à moda americana. No cardápio, era de dar água na boca:

BBQ Pork Ribs

E, de fato, o prato era divinamente preparado, correspondendo exatamente à foto do menu. O único senão era o gosto: muito doce, praticamente temperado com açúcar.

Fiz o que pude, mas não consegui comer as benditas costelas e tive que me contentar com as batatas fritas.

É importante fazer uma ressalva: o paladar, assim como a cultura, varia de região para região, de país para país. O meu, particularmente, é de gaúcho acostumado com carne temperada apenas com sal grosso. As pork ribs são, certamente, excelentes para o paladar americano, acostumado com molhos barbecue e temperos adocicados. Quando o garçom me perguntou se não havia gostado do prato, foi exatamente o que eu disse: “é muito doce para o nosso paladar“.

Sem titubear, o simpático garçom lamentou pelo prato não ter agradado e disse que não seria cobrado. Respondi que não havia problema, que poderiam cobrar normalmente e que não era culpa deles. Na minha lógica pessoal de consumidor, seria injusto não pagar, afinal o prato estava bem preparado e, afinal, o problema era meu se eu tinha gostado ou não. Não tinha sido a primeira escolha infeliz em restaurantes e certamente não seria a última.

Ao trazer a conta, surpresa!: não cobraram pelas pork ribs.

Fiquei sinceramente sensibilizado com o gesto e, mais ainda, com a aplicação na prática da filosofia “o cliente em primeiro lugar”. Também fiquei impressionado com a agilidade e o poder de decisão do garçom: sem consultar gerentes ou superiores, tomou a decisão no ato. É exatamente isso o que eles querem dizer com “empowerment“, ou delegar poder. Mais um conceito administrativo na prática.

Há quem torça o nariz para os americanos. Eu tiro o meu chapéu para os caras. Passar alguns dias nos Estados Unidos vale por muitas e muitas aulas de Administração.

Enfim, amigos, é de se pensar. Essa poderia ter sido apenas uma experiência gastronômica mal sucedida e, provavelmente, nunca mais teria voltado no Planet Hollywood. Mas cá estou eu, tecendo elogios públicos para o restaurante, recomendando-o a todos. Vale a pena. É satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta. De verdade.

Post to Twitter Tweet This Post

ExpoManagement vem aí…

26 nov
2009

Pela primeira vez em 5 anos, não vou participar da ExpoManagement. Em virtude de um compromisso inadiável, tive que abrir mão de estar presente nesse que é, sem dúvida, o maior evento global sobre Administração e Negócios.

Dá até tristeza de olhar a programação do evento e não poder ir: Michael Porter, Paul Krugman, Rudolph Giuliani, Bill Tancer, Christie Hefner, Kenichi Ohmae, Ian Ayres, Venkat Ramaswamy, Jack Welch (via videoconferência)…

Quem estiver em São Paulo entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro, trata-se de uma oportunidade ímpar de aprender com os maiores especialistas mundiais em management. Além das palestras principais, há uma série de palestras paralelas gratuitas, ministradas por excelentes profissionais e por professores das melhores escolas de negócios do Brasil.

Ah, e para aqueles que estarão na ExpoManagement, por favor, não deixem de comentar aqui as suas impressões.

Post to Twitter Tweet This Post

Você já comprou o seu Kindle?

06 nov
2009

Como Jeff Bezos e a Amazon estão revolucionando os hábitos de leitura

Comecei a namorar o Kindle em 2008. Tentei comprá-lo pelo site da Amazon, mas sua venda, naquela época, estava restrita apenas para os Estados Unidos.

Na verdade, era muito mais a curiosidade geek de conhecer um novo aparato tecnológico do que o afã de ler livros no formato digital. Aliás, nunca fui muito fã de e-books. Sou do tipo aficionado pelo bom e velho livro de papel. Sou daqueles que se amarram em perder a noção do tempo em livrarias, ir à caça de raridades em sebos e que sente verdadeiro prazer em ter um livro em suas mãos: aprecio o cheiro, o passar das páginas, rabiscar nas margens e guardá-lo na estante, junto aos seus parentes mais próximos. Se empresto algum, recomendo ao sujeito que o trate com carinho e que jamais utilize as “orelhas” como marcador de páginas.

Num determinado domingo de outubro de 2009, uma revista semanal estampava um simpático Paulo Coelho na capa segurando o singelo aparelhinho. “O último livro que você irá comprar”, dizia a manchete que anunciava o lançamento da versão internacional do Kindle.

Fui o primeiro leandro do mundo a comprar o aparelho. Sei disso porque eles geram uma conta de e-mail para os proprietários do Kindle no formato fulano ‘@‘ kindle, e o meu é justamente leandro‘@‘kindle (a omissão do .com aqui é proposital para evitar a captura do endereço por spammers). Poucos dias depois, recebi a encomenda, e parti pro ataque.

A operacionalização é muito simples e dispensa uma leitura mais atenta do manual de instruções. A brincadeira começa quando você acessa a “Kindle Store”, a interface da própria Amazon específica para o Kindle. De cara, você já tem alguns títulos selecionados especialmente com base no seu perfil: “Recommendations for you”. Essas recomendações são feitas com base no seu perfil de leitor, montado a partir de suas compras no site da Amazon. Como leio bastante sobre Administração, Marketing, Empreendedorismo e livros relacionados a Internet, as sugestões para mim são sempre precisas nessas áreas.

Rapidinho, o Kindle consegue fazer você passar lépido e faceiro pelo processo que os profissionais de marketing chamam de AIDA – Atenção, Interesse, Desejo e Ação. Ele atrai sua atenção sugerindo de cara recomendações com base no seu perfil. Em um clique, você consegue saber mais sobre o livro, o que desperta o seu interesse. Na mesma tela, você conhece a opinião e a avaliação de outros leitores que já leram o livro em questão, o que acaba gerando, inevitavelmente, um desejo. Na mesmíssima tela, o botão “BUY“ está ali visível, a um clique de distância. É aí que você entra em ação. Como os dados do seu cartão já estão previamente gravados na Amazon, você não precisa fazer nada: é realmente “1 click to buy”. Click. Em menos de um minuto, o livro está inteirinho no seu Kindle.

Pense na comodidade que isso pode proporcionar. Você pode ler e comprar livros esteja onde estiver: no ônibus, no parque, na praia, em casa, no escritório. Vai muito além de uma simples compra on-line. É imediato.  Gostei-vou-levar-já-levei. Ah, e a coisa não se resume apenas a livros. Você também pode assinar revistas e jornais através do Kindle. O seu jornal do dia, muito antes de chegar às bancas ou até mesmo ser impresso, já está disponível no seu livro ambulante.

Sabe aquelas coisinhas que você compra por impulso no caixa do supermercado, como chicletes, balas e itens do gênero? Você acaba se comportando de maneira semelhante com o seu Kindle, e leva muito mais livros do que levaria se estivesse em uma livraria, por exemplo.

E acaba lendo muito mais também. Não sei se acontece com todo mundo, mas carrego o Kindle pra cima e pra baixo, como se fosse um celular. Com os livros tradicionais, geralmente, só me encontro à noite, depois do jantar, e nos fins de semana. Com o Kindle, estou grudado direto.

Se é ruim ler através do Kindle? Não vou dizer que é a mesma coisa, porque não é. Mas também não é uma experiência que possa ser limitada por melhor ou pior. É algo diferente. Esqueci de dizer que, junto com o aparelho, comprei um estojo de proteção que imita a capa de um livro. Você segura o objeto como se fosse um livro de verdade. Lá pelas tantas, você abstrai totalmente que aquilo é um dispositivo eletrônico.

Jeff Bezos não é tão cultuado no Brasil como Steve Jobs, Bill Gates, ou outros gênios empresariais. Mas, sem dúvidas, ele foi o cara que revolucionou o e-commerce e os nossos hábitos de compra através da internet. O modelo da Amazon serve de referência para toda e qualquer loja virtual que nós conhecemos. Bezos agora está revolucionando, também, o próprio hábito da leitura – um feito comparável ao de Gutenberg com a invenção da imprensa.

O jornalista Robert Spector conta que, certa vez, perguntaram a Bezos se ele pretendia que a Amazon fosse “a Wal-Mart da Web“, ao que ele respondeu: “não pretendemos ser Nada da Web. Somos, geneticamente, pioneiros… Todos aqui querem fazer algo totalmente novo. Todo dia acordo tentando descobrir um meio de confundir jornalistas e críticos que tentam nos aprisionar numa declaração bombástica de oito segundos“. Jeff Bezos diz que um dos modos de definir o sucesso é “a eficiência na refutação das analogias fáceis“. Foi esse espírito inquieto, visionário e empreendedor que tornou o Kindle realidade.

Talvez eu, você e outros veteranos nunca consigamos nos livrar do fetiche pelos livros tradicionais. Mas percebi que é plenamente possível abraçar essa novidade sem dar adeus aos seus fiéis companheiros de jornada. O que o futuro nos reserva quanto ao ato de ler e as formas de construção do saber ainda é uma incógnita. Entretanto, é certo que nossos filhos irão ler muitas e muitas páginas feitas de material intangível e repletas de conhecimento concreto. Viva a leitura!

Post to Twitter Tweet This Post

Arrasta-me para o inferno!

29 set
2009
“Naquilo que concordamos denominar ‘civilização’ reside inegavelmente um princípio diabólico do qual o homem apenas se deu conta demasiado tarde, quando não era mais possível remediá-lo.”

E. M. Cioran (1973)

Arrasta-me para o Inferno (Drag me to Hell) marca a volta do diretor Sam Raimi ao terror, gênero que o consagrou. Se você não gosta de filmes trash, por favor, não vá ao cinema ou alugue esse filme. Mas não deixe de levar em consideração a profunda reflexão sobre a vida corporativa que essa história pode suscitar.

Christine está prestes a ser promovida. Seu único concorrente é Stu, um novato que pode ter a preferência do chefe por saber “tomar decisões difíceis”. Certo dia, recebe a visita da senhora Ganush, que precisa renovar a hipoteca de sua casa para não ser despejada. Christine consulta o chefe para saber se pode prorrogar sua hipoteca ou não. “Já demos a ela duas extensões. É uma decisão difícil. É você quem sabe”, responde o chefe.

As palavrinhas mágicas “decisão difícil” ecoam na mente da protagonista, que vislumbra aí a oportunidade de mostrar serviço e sacramentar sua promoção. O diretor consegue ilustrar com maestria, em poucos segundos, o dilema moral de Christine: ela tem o poder de prorrogar mais uma vez a hipoteca da velha e humilde senhora ou, por outro lado, negar-lhe o benefício e conquistar, assim, a posição almejada.

É nesse ponto que nós, expectadores, acabamos nos identificando profundamente com a personagem. Esse dilema tão comum, tão rotineiro, tão humano, acontece todos os dias em nossas organizações. Não é a defesa dos interesses do banco, nem o “vestir a camiseta da empresa” que pesa na decisão de Christine. É o olhar esperançoso e sonhador à mesa vazia do futuro “gerente-assistente” que motiva a jovem analista. São seus próprios desejos e interesses individuais que norteiam sua decisão: “Eu sinto muito, mas outra extensão não é possível”, comunica à senhora Ganush.

Não quero cometer nenhum spoiler, mas a partir daí, Christine vai, literalmente, comer o pão que o diabo amassou. Antes de terminar a leitura do artigo, assista ao trailler do filme.

Ora, mas é assim que as coisas funcionam”, você pode estar dizendo aí do outro lado. Eu sei exatamente como as coisas funcionam. Aliás, a gente costuma sempre repetir esse argumento quando temos que tomar decisões como a de Christine. É um mecanismo de auto-proteção que nos ajuda a conviver com nossas escolhas e com as decisões que, invariavelmente, temos que tomar. Mas Christine tinha o poder naquela hora…

Pascal disse certa vez que “nem ao homem mais imparcial do mundo é permitido que se torne juiz em seu próprio caso”. Será que era o caso específico da senhora Ganush que Christine julgou naquele momento ou o seu próprio? Pense nisso.

E você, como se comporta em situações como essa? Que tal compartilhar mais abaixo?

Post to Twitter Tweet This Post

A caspa e o poder da amostra-grátis

31 jul
2009

Se você estivesse nos anos 70 ou 80 e alguém lhe pedisse para dizer a primeira marca de shampoo anti-caspa que lhe viesse à mente, certamente você diria: Denorex – e de quebra ainda repetiria o famoso bordão “parece, mas não é”. E hoje, que marca você diria?

Há mais ou menos um ano atrás, comprei alguns livros em uma livraria do aeroporto de Congonhas e recebi de brinde uma amostra-grátis do anti-caspa Clear, que na época também estava com uma forte divulgação na TV e em várias revistas. “Que gesto simpático!”, pensei, saindo satisfeito da livraria.

Na semana passada, minha esposa notou alguns pontos brancos em minha camisa preta. “Você está com caspa”, disse ela, ao mesmo tempo em que passava a mão nos meus ombros. “Parece, mas não é. Isso é poeira”, respondi, tentando disfarçar o embaraço. Fico até sem jeito de comentar, mas não é que era caspa mesmo? Bom, isso acontece nas melhores famílias. Vai dizer que você nunca teve…

Para resolver o problema, corri para o supermercado mais próximo em busca de um shampoo tiro-e-queda. Qual a primeira marca que me veio à cabeça? Aháá! Um ano depois do singelo gesto de ser presenteado com um sachê de anti-caspa em uma livraria, apenas cinco letras dançavam em minha mente: C-L-E-A-R.

Amostra-grátis é um dos recursos mais poderosos e eficazes do marketing. A resposta imediata é a simpatia. Se a comunicação for bem trabalhada – como no caso do Clear, que complementou a distribuição de amostras com propagandas convencionais -, é algo que pode transformar a sua marca em top of mind.

Experimente oferecer algo de graça para os seus clientes ou potenciais clientes. Muitas vezes, amostras-grátis e brindes são determinantes na sua indecisão entre levar a escova de dente comum e a outra também comum, mas que já vem com a pasta, ou entre o celular maneiro que vem com um álbum de sua banda preferida e o outro que só é maneiro e nada mais, entre o carro que inclui o airbag como item de série e o outro que cobra a mais por isso, entre a companhia aérea que somente vende passagens e a outra que premia seus fiéis clientes com passagens grátis.

Todos adoramos essa palavra: “grátis”. Quando recebemos qualquer coisa gratuitamente, acionamos uma necessidade interna de retribuir. Essa retribuição pode ser automática, ou pode vir tempos depois. Cedo ou tarde, cedemos à tentação de retribuir.

Com o perdão do trocadilho, se você quer grudar a sua marca na cabeça de seu cliente, estude formas de recompensá-lo. Ele merece esse reconhecimento. Recompense-o, antes mesmo de ele vir a comprar algo de você. Você pode até ter a sensação momentânea de estar perdendo algo, mas essa é só uma sensação do tipo Denorex: parece, mas não é.

Post to Twitter Tweet This Post