Desventuras de um early adopter

Comprar produtos logo que são lançados pode dar prejuízo, mas é tão bom…

Sou constantemente zoado em minha família por fazer as “piores compras”. Por não conseguir conter a curiosidade, tenho a mania de comprar os produtos assim que são lançados.

Sabe quando teve o boom das TVs de plasma em 2006, ano da última copa? Pois é. Paguei 9 mil reais na minha. Alguns meses depois os preços despencaram, e os meus irmãos me chamavam carinhosamente de otário toda vez que me viam, virou quase um apelido. Algum tempo depois, com o mesmo dinheiro já era possível comprar duas TVs iguais à minha.

Logo que a Apple lançou o iPod Touch em 2007, não hesitei em comprá-lo. O único detalhe é que o iPhone, lançado no resto do mundo alguns meses depois, fazia tudo o que o Touch faz, mas com a singela diferença de servir também como telefone celular. Meti o pé na jaca de novo.

No ano passado, no primeiro dia em que o Kindle foi lançado para o resto do mundo, lá estava eu novamente, cego para os valores e possíveis consequências de comprar um produto recém lançado. Novamente, pouco tempo depois o preço do gadget da Amazon caiu e, para a minha irritação, eles liberaram para compra internacional o Kindle DX, com tela maior e com mais recursos. Bastardos!

Em termos teóricos, no Ciclo de Vida da Adoção de Tecnologia, enquadro-me na categoria de “Early Adopter”, ou adepto inicial, representado no famoso gráfico em forma de sino abaixo:

 

Fonte: Moore, Geofrrey A. Inside the Tornado.

Geoffrey Moore, consultor americano que ficou famoso após a publicação de Crossing the Chasm (Atravessando o Abismo), explica que esse modelo da década de 50 postula que, quando um mercado confronta-se com a possibilidade de mudança de paradigmas – como a transição das máquinas de escrever para os processadores de textos -, os consumidores se separam ao longo de um eixo de aversão ao risco, iniciando com os inovadores (innovators), imunes ao risco,  terminando com os retardatários (leggards), totalmente avessos ao risco. Entre esses dois extremos, surgem outras três comunidades, identificadas como adeptos iniciais (early adopters), maioria inicial (early majority) e maioria tardia (late majority). Segundo o modelo, a mudança á adotada sempre da esquerda para a direita.

Moore identificou algumas características peculiares de cada grupo, e os rebatizou da seguinte forma:

1. Inovadores = Entusiastas pela tecnologia - São aqueles caras realmente comprometidos com a nova tecnologia, e que têm prazer em dominar as suas complexidades. Você já deve tê-los visto na TV passando a noite na rua, na fila de alguma loja, para serem os primeiros a comprar o último lançamento da Apple. Essas pessoas são extremamente importantes. Se algum determinado produto não cair no gosto dessa turma, as chances de conquistar os demais grupos serão muito pequenas (um exemplo claro é o do Zune, MP3 player da Microsoft criado para concorrer com o IPod).

2. Adeptos Iniciais = Visionários – Esses são os verdadeiros revolucionários, dispostos a usar a descontinuidade de qualquer inovação para romper com o passado e começar um futuro totalmente novo. Juntamente com os entusiastas pela tecnologia, eles formam o mercado inicial. Enquanto os entusiastas desejam explorar, os visionários desejam aproveitar o novo recurso.

Uma vez que a empresa obteve sucesso na conquista do mercado inicial, formado pelos entusiastas pela tecnologia e pelos visionários, deverá procurar outro tipo de cliente, que deseja apenas o que os outros desejam. São os pragmáticos.

3. Maioria Inicial = Pragmáticos – Agora estamos falando do grosso de todas as compras de infraestrutura tecnológica. Eles não amam a tecnologia, mas entendem a sua necessidade. Entretanto, os pragmáticos procuram adotar inovações somente após comprovarem que elas realmente funcionam, são necessárias e promovem melhorias. Olham com desconfiança para novas marcas e preferem confiar apenas nos líderes de mercado.

4. Maioria Tardia = Conservadores – Sabe aquele tipo de cara pessimista diante da possibilidade de se adotar uma nova tecnologia, que não deseja que nada atrapalhe o seu próprio jeito de fazer as coisas? Os conservadores relutam em investir em novas tecnologias, e só o fazem sob pressão. São muito sensíveis a preços, altamente céticos e muito exigentes. O segredo para fazer negócio com os conservadores é justamente simplificar os sistemas e transformá-los em produtos funcionais.

5. Retardatários = Céticos – Combatem a alta tecnologia, são muito menos clientes potenciais do que críticos onipresentes. Contudo, o objetivo do marketing de alta tecnologia não é vender para eles, mas ao redor deles.

Em conjunto, esses cinco grupos constituem o Ciclo de Vida da Adoção de Tecnologia. Durante a década de 80, as empresas se apoiaram na ideia de desenvolver o mercado trabalhando de um perfil para o outro. Em tese, isso era maravilhoso. O que Moore identificou foi que, na prática, a teoria não funcionava com frequência. A transição dos visionários (early adopters) para os pragmáticos é especialmente complicada, em virtude das diferenças gritantes entre os dois grupos. Ao invés de estarem dispostos lado a lado, como o modelo previa, Moore apontou que existe um abismo (the chasm!) entre eles – e atravessar esse abismo não é tão simples quanto parece.

Perdoe-me o leitor entretido na leitura por não ensinar a cruzar o abismo nesse artigo. A fórmula não é simples, o próprio Moore a vem desenvolvendo e aperfeiçoando desde a década de 90, sendo explorada em vários de seus livros. Por falar em livro, não deixe de procurar em sebos o Dentro do Furacão (Inside the Tornado), se eu não me engano, a única obra de Geoffrey Moore traduzida para o português. É uma edição da Futura de 1996. Pela relevância, merecia ser tratada com mais carinho.

Voltando ao tema principal do artigo, sugerido no título “desventuras de um early adopter”, estou me coçando agora pelo IPad. Por diversas vezes em sites de comércio eletrônico, já cliquei em “colocar no carrinho” o novo hit da Apple. Tomando com base minhas experiências anteriores, uma voz na minha cabeça sussurra: “espere mais um pouco”. É difícil. Muito difícil. Eu sei que o produto vai baixar. Eu sei que eles deverão lançar brevemente uma nova versão aprimorada, com novos e melhores recursos. Mas e daí? Enquanto isso, eu também sei que o IPad existe e eu não o tenho…

E você, em qual das categorias se encaixa? Você é um entusiasta pela tecnologia, um visionário, pragmático, conservador ou cético? Que tal compartilhar suas experiências de consumo, bem ou mal sucedidas, mais abaixo?

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Você é um profissional Jack Bauer?

Em apenas um dia, Jack Bauer consegue salvar os Estados Unidos de ataques terroristas – não apenas uma, mas diversas vezes, evita atentados à vida do presidente, identifica traidores, interroga suspeitos, invade embaixadas, foge de prisões, infiltra-se em grupos inimigos e, no fim de 24 horas, consegue dar conta de todos os desafios. Nenhum outro personagem do cinema ou televisão é tão eficaz quanto Jack Bauer.

Peter Drucker foi, sem dúvidas, o pensador que mais bateu na tecla sobre a importância da eficácia. Segundo o pai da administração moderna, eficácia significa fazer as coisas acontecerem. Só isso? Exatamente. Parece simples, mas poucos são os profissionais que realmente têm a capacidade de fazer o que tem que ser feito e entregar resultados satisfatórios. A boa notícia é que a eficácia é um hábito que podemos adquirir como adquirimos qualquer outro hábito, ou seja: a partir daprática.

Drucker aponta cinco práticas essenciais para qualquer pessoa se tornar um profissional eficaz. Vamos ver como Jack Bauer lida com cada uma delas?

- Gerenciar o tempo – O tempo é um recurso limitante e totalmente irrecuperável. “Se você não souber gerenciar o seu tempo, não poderá gerenciar coisa alguma“, diria o professor Drucker. Em 24 Horas, o relógio corre literalmente contra Jack Bauer, o que faz da gestão do tempo uma questão de vida ou morte para o agente da CTU.

- Esforçar-se para dar contribuições - O foco na contribuição é a chave da eficácia. Significa transferir a atenção do profissional de sua própria função, de sua especialidade específica, para o desempenho da empresa como um todo. Drucker recomenda que se faça sempre a seguinte reflexão: “que tipo de contribuição posso oferecer que afetará de forma significativa o desempenho e os resultados da empresa em que trabalho?“. Bauer tem uma clara noção do todo. O personagem nunca se esquiva de uma missão importante com a desculpa de que “isso não faz parte do meu trabalho, não sou pago para isso“.

- Tornar produtivos os pontos fortes da organização – Nada se constrói sobre a fraqueza e, para conseguir resultados, devemos usar todas as forças disponíveis – a dos colegas, a dos superiores e a nossa própria. O executivo eficaz não toma decisões sobre pessoal para diminuir fraquezas, e sim para aumentar a força da empresa. Nesse ponto, o personagem de Jack Bauer encarna o verdadeiro gerente eficaz de Drucker. Bauer costuma tomar a frente das operações, faz questão de trabalhar apenas com os seus melhores colegas (e respeita e reconhece as competências de cada um), questiona e influencia a ordem de seus superiores – o que inclui até mesmo o presidente dos Estados Unidos! – e, por fim, tem consciência de seus próprios pontos fortes e os coloca totalmente à serviço da “organização” (no caso, a CTU e os EUA).

- Concentrar seus esforços nas tarefas mais importantes para atingir resultados – Um dos segredos da eficácia reside na concentração dos esforços. Primeiro o mais importante. Devemos saber lidar com a realidade de que sempre há mais coisas a fazer do que tempo disponível para realizá-las. Para sermos eficazes, devemos saber estabelecer prioridades e, também, posterioridades – aquelas tarefas que adiamos ou até mesmo abandonamos. Jack Bauer é um mestre nessa prática. Uma das 24 frases mais ditas em todas as temporadas da série é justamente “I don’t have time for this!” (“não tenho tempo para isso!”). Bauer, inclusive, costuma passar por cima de algumas normas e regras burocráticas que podem travar e comprometer o cumprimento de suas missões (um alerta: não tente fazer isso na sua organização!).

- Tomar decisões eficazes – Drucker observa que a decisão certa exige tanto análise quanto coragem. Cada decisão é um julgamento de risco: é um comprometimento de recursos presentes com um futuro incerto e desconhecido. Se o processo de tomada de decisão for cuidadosamente observado e as medidas necessárias forem tomadas, diminui-se o risco e aumenta-se a chance da decisão ser bem-sucedida. Todas as decisões de Bauer são extremamente difíceis e arriscadas, mas o personagem tem consciência de sua importância e não sucumbe com o peso de seu fardo – e não se exime de tomá-las, mesmo que tenha que arcar com severas consequências posteriormente.

A eficácia dos gerentes é a nossa maior esperança para tornar a sociedade moderna economicamente produtiva e socialmente viável“. Peter Drucker

Jack Bauer

I don't have time for this!

Antes que atirem a primeira pedra, quero deixar claro que devemos guardar as devidas proporções nessa comparação. Jack Bauer é um personagem fictício de uma (viciante) série de televisão. Seus fins sempre justificam seus meios nada ortodoxos. As situações impostas pelos roteiristas sempre colocam Jack entre a cruz e a espada com dilemas morais e éticos complexos do tipo “justifica-se torturar alguém para obter uma informação capaz de salvar milhares de pessoas?“. Gostaria que o leitor, sinceramente, não tomasse esse exemplos para condenar o pobre Jack Bauer e esse seu humilde fã que vos escreve. É importante lembrar que Jack Bauer jamais saiu aplaudido ao final das 24 horas. Pelo contrário, no último episódio seus problemas sempre recomeçam… tic-tac, tic-tac, tic-tac.

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