Respondendo aos leitores
2008
Advertência: esse post é uma resposta aos comentários dos leitores ao post anterior, “Caçadores de concursos e crescimento econômico”, cuja leitura é recomendada.
Eu sabia que iria gerar polêmica. Eu sabia que iria levar pedrada. Mas alguém tem que fazer o trabalho sujo. Agradeço, de antemão, a todos que comentaram o artigo O Ônus da Cultura do Funcionalismo Público, até mesmo ao Koisé, que disse que eu parecia o Kaká. Meus amigos, apenas gerando discussões e debates, somos capazes de avançar. Aviso que irei me estender um pouco…
A minha preocupação central é justamente com a corrida em todo o Brasil por vagas no setor público cujo trabalho em nada acrescenta ao crescimento econômico do país. Quando falo de crescimento econômico, isso não desmerece a importância do serviço público ou dos funcionários públicos. Todos cumprem o seu papel na operacionalização da máquina estatal, sem a qual não viveríamos. Em nenhum momento digo que o setor público é inútil ou "inerte" (como esbravejou o Eduardo)…
No ano passado, a revista Veja publicou uma matéria de capa com a seguinte chamada: 5 milhões de brasileiros irão prestar concurso público em 2007. Número de vagas? 100 mil. É muita gente para pouca vaga, e o estado tem um limite. Não é preciso criar modelos matemáticos para prever o que irá acontecer com essa turma nos próximos 10 ou 20 anos…
Para gerar crescimento econômico, é preciso investir em ciência e tecnologia, inovação e desenvolvimento de novos negócios. Esse é um postulado econômico puro e simples. Entretanto, grande parte de nossos maiores talentos, pessoas capacitadas, sente-se muito mais atraída pelo eldorado chamado serviço público, devido, principalmente, aos atrativos citados no início do artigo – (…)salário vitalício, benefícios garantidos pelo Estado, estabilidade, carga horária conveniente(…). Essas pessoas, por exemplo, poderiam contribuir para a melhoria das condições do setor privado – que é quem leva o Brasil nas costas -, seja estudando a fundo a problemática das empresas, seja colocando em prática a sua visão de excelência, servindo de exemplo e referência para outras empresas e outros profissionais.
Esse é o ponto central de meu artigo, que desenvolve a seguinte linha de raciocínio:
A instabilidade econômica e escassez de empregos ocasionam o desinteresse por empreender e a buscar empregos na iniciativa privada. Ao mesmo tempo, elevam o interesse de muitos por vagas no setor público, em virtude das "vantagens" citadas anteriormente. Um número incontável de pessoas com preparo e talento passa a se dedicar – e com uma certa obsessão – a passar em algum concurso. Logicamente, o setor público não pode absorver todo esse contingente de pessoas. Logicamente, alguns passam, mas a imensa maioria permanece se preparando continuamente, na espera de algum dia ser aprovado. Enquanto se preparam para os concursos, não desenvolvem habilidades e competências essenciais na iniciativa privada. Os conhecimentos que adquirem nessa jornada são rasos. Sabe mais quem sabe um pouco de tudo para poder fazer a prova, e saber um pouco de tudo é o mesmo que nada: não provoca avanços na ciência, tampouco estimula a inovação e tampouco fomenta novos negócios. Tais conhecimentos, arrisco-me a dizer, também não são úteis para promover melhorias significativas no próprio setor público. Por quê? Porque o sistema burocrático tem auto-defesas muito fortes.
Se enxergarmos a sociedade através do prisma da burocracia , iremos encontrar um grande sistema de dominação. A maior parte dos Estados contemporâneos se caracteriza por uma ordem política “nitidamente burocrática”, embora seja importante fazer a ressalva das diferenças que podem existir de base moral, legal e material de sua autoridade. Um importante pensador da Administração, Fernando Carlos Prestes Motta (já falecido), compartilhava a visão de Claude Lefort de que “a burocracia é um grupo que tende a fazer prevalecer um certo modo de organização, que se desenvolve em condições determinadas, que se amplia devido a um certo estado da economia e da técnica, mas que somente é o que é em sua essência, em virtude de uma atividade social”. Ressalta-se, nesse conceito, a questão da atividade social fazendo menção à intenção dos burocratas de se constituírem em um grupo à parte, de um sistema de poder coletivo definido a partir de sua oposição à ausência de poder dos dominados. Cita-se também a sua intenção de se organizarem em um “sistema de mando e subordinação que estabelece diferenças materiais e de prestígio entre os membros do grupo”. Para Motta, o fenômeno burocrático caracteriza-se por um conservadorismo expresso especialmente na manutenção e expansão de uma situação de privilégio.
A essência desse fenômeno é a mesma em qualquer dos sistemas políticos das classificações usualmente feitas. No lugar de representar uma ponte entre os interesses particulares e os coletivos, a burocracia serve a seus próprios interesses – “uma corporação que se defende em oposição às demais corporações”. A esse respeito, o seguinte trecho da obra de Motta merece destaque: “Enganam-se os que julgam a competência da burocracia pela satisfação dos interesses da sociedade civil. Nesse sentido, a burocracia é sempre incompetente, já que como círculo fechado vive para si própria. A competência da burocracia precisa ser vista na sua capacidade de manutenção e expansão enquanto sistema de poder”.
Mais uma vez – e já me encaminho para o final -, o setor público é indispensável em toda e qualquer sociedade. Uma das características dos países desenvolvidos é justamente o perfeito funcionamento das suas instituições, elemento fundamental para que os atores sociais se desenvolvam e contribuam para o desenvolvimento de seu país (questão central também do pensamento de Douglas C. North, Nobel de Economia). Porém, como coloquei já no fim do artigo, o Estado brasileiro não faz sua parte. Pelo contrário, joga contra. Nesse sentido, estamos em um mato sem cachorro.
O estado por si só não se sustenta. É preciso uma economia de mercado dinâmica para sustentar as atividades do estado, de forma que o estado possa desempenhar o seu papel de forma excelente, devolvendo à sociedade em forma de serviços essenciais aquilo que a sociedade lhe proveu na forma de tributos. Entretanto, falta dinamismo ao setor privado brasileiro. E eis aqui algo que me tira o sono de noite. Nosso setor privado realmente não é eficiente, o empreendedorismo brasileiro, no geral (e essa é uma generalização necessária), é muito rudimentar, surgindo muito mais por necessidade do que pela identificação de oportunidades. Não há diálogo entre academia e mercado. E, ao invés de termos pessoas debruçadas sobre os problemas enfrentados por nossas organizações, pesquisando, inovando ou empreendendo, temos um êxodo cada vez maior dos nossos talentos em busca do setor público.
A questão não é se o setor público brasileiro é eficiente ou ineficiente. A questão é que o nosso setor privado precisa de pessoas capacitadas, talentosas e inteligentes, mas grande parte de nosso contingente pessoal com essas características sente-se muito mais atraída por cargos públicos. Do ponto de vista individual, todos aqueles que almejam vagas no setor público estão mais do que certos. Lógico: por que eu deveria me esforçar para atuar em
um campo cheio de riscos, sem segurança e sem estabilidade, quando posso trabalhar para o estado, sem me preocupar pelo resto da vida? Porém, o ônus do ponto de vista coletivo é muito alto, pelas razões expostas nesse post e no referido artigo.
Bom, escrevi mais do que no próprio artigo, mas sinto-me imensamente honrado em poder debater com pessoas inteligentes como todos vocês. Até a próxima!

06 ago, 2008 0:00
Eduardo 6/8/2008 – 14:35
eduareles@terra.com.br
Fico impressionado com a sua afirmação “que é quem leva o Brasil nas costas é a iniciativa privada”. Será? E quando os “empresários” brasileiros fazem besteira, a quem eles vão pedir ajuda? Aí todo o blábláblá sobre o neoliberalismo vai por água abaixo. Reflita.
06 ago, 2008 0:00
Leandro Vieira 6/8/2008 – 17:9
leandro@administradores.com.br
Amigo Eduardo,
Quando você coloca “E quando os “empresários” brasileiros fazem besteira, a quem eles vão pedir ajuda? Aí todo o blábláblá sobre o neoliberalismo vai por água abaixo”, você revela um viés ideológico que, talvez, lhe impeça de reconhecer a realidade latente na afirmativa “quem leva o Brasil nas costas é a iniciativa privada”.
As empresas são responsáveis por aproximadamente 3/4 dos empregos no país. O estado emprega apenas 9,6%. Dos empregos gerados no setor privado, mais de 80% são de responsabilidade de empresas de pequeno porte (até quatro empregados). Diante disso, fica evidente quem é que leva o Brasil nas costas.
Leve em consideração, ainda, os seguintes aspectos:
* O Crescimento de produtividade é primeiramente promovido pela taxa de inovação tecnológica.
* A maior parte das inovações é resultado de atividades e investimentos empresariais.
O empreendedorismo atua como uma força positiva no crescimento econômico ao servir como ponte entre a inovação e o mercado. O empreendedor é o principal agente do crescimento econômico.
É o empreendedor brasileiro, um verdadeiro burro de cargas, que tem que se virar com as besteiras e trapalhadas do governo, e não o contrário.
Um abraço!
06 ago, 2008 0:00
Alexandre 6/8/2008 – 16:0
alehuang@gmail.com
Leandro, perfeito !
Só tem o discurso contrário ao seu quem está estudando para concurso ou é mais um que o governo ( eu ) sustenta.
Infelizmente as oportunidades são poucas neste país. Mas não é só pq o governo incinera as oportunidades e sim também devido ao grande contigente de pessoas que não fazem valer a pena o potencial que existe em cada um.
E ainda surgem aqueles que não são capazes de nada ou tem medo de enfrentar o mundo real e sugam as energias e economias da família em prol de ” estudos ” mentirosos e embromação, enquanto o país agoniza, precisando de ajuda.
Contra fatos não há argumentos: O funcionalismo público não faz o país crescer. São inúmeros os cargos que somente arrancam do país dinheiro e mais dinheiro ( INSS, Detran, SUCOM, juízes, promotores, receita federal…) sem contribuir em nada.
E ainda vem um me dizer que as empresas é que são o calo da nação. Triste da mente e do país que tem esses ideais.
07 ago, 2008 0:00
Karen 7/8/2008 – 22:35
karen.sturk@uol.com.br
Interpretei estes dois artigos e os comentários de uma maneira diferente… Na minha opinião e pelo que observo, quando uma pessoa possui determinação e “espírito empreendedor”, não importa se ela trabalha para o governo ou para uma empresa: ela será excepcional. O problema é que atualmente não é interessante para o governo nem para algumas empresas o desenvolvimento dessas pessoas… Mas aqueles que persistirem, trarão bons resultados ao país. Portanto, em minha opinião, a maior tarefa é tentar conscientizar as pessoas do potencial que possuem para a mudança e estimular esta mudança. Para mim, o crescimento econômico precisa da atuação da iniciativa privada e do governo e, portanto, os dois precisam de pessoas brilhantes para integrar seus times.
09 ago, 2008 0:00
Lorraine Honorato 9/8/2008 – 17:12
lorrainealvarenga@yahoo.com.br
Olá, concordo plenamente com o seu comentário, acho que as pessoas deveriam se dedicar não só a pensar em concursos, mas também focalizar em outras áreas que necessitam de pessoas capacitadas e experientes ou não para atuar. Estou me formando agora e o sonho dos meus pais -funcionários públicos- é que eu me torne uma também. Não querendo desmerecer a profissão, mas já fiz estágio em um órgão público e pude ver como as pessoas se sentem acomodadas com a situação em que se encontram de “estabilidade financeira”, talvez para muitos isso seja o mais importante, mas na realidade o que busco é uma área da qual eu possa me realizar, não somente receber um salário razoável, com estabilidade e garantia da maioria dos feriados…Existem exceções mas vejo esta procura desgrenhada por uma vaga no serviço público como acomodação e estagnação de carreira.
17 ago, 2008 0:00
nelson lima 17/8/2008 – 9:40
geral@institutodainteligencia.net
Caro Leandro,
Embora eu não conheça a realidade brasileira de forma direta quero aqui deixar expressa minha opinião sobre este seu esclarecedor texto.
Concordo plenamente com seu ponto de vista. De fato, os empregos públicos em certos países (como acontece também em Portugal),exercem uma grande atratividade sobre um número considerável de pessoas que poderiam ser muito úteis no setor privado. Em Portugal, que atravessa atualmente uma crise econômica profunda (não tanto por fatores externos mas por má governação do país nas últimas décadas)o setor público continua sendo aquele que mais segurança oferece a quem procura emprego.
Hoje, Portugal, tem um número exagerado de funcionários do Estado e isso é causa de grande despesa que só tem sido resolvida com o aumento de impostos.
Pena é que o empreendedorismo em Portugal seja uma capacidade não muito cultivada. Há muitos negócios mas a falta de preparação em gestão faz com que a grande maioria das empresas não consiga ultrapassar os desafios atuais e se mantenha com baixos resultados.
O empreendedorismo se deve a fatores muito pessoais (intrínsecos aos indivíduos) mas também exige que o ambiente político, económico e cultural lhe seja favorável. Assim não acontecendo, muitos empreendedores em potência se inibem, resignam e preferem a estabilidade dos empregos públicos.
Poder-se-á dizer que esses não terão verdadeiramente espírito e garra de empreendedores. Concordo que isso aconteça com muita gente.
Mas a verdade é só uma: a grande maioria das pessoas se acomoda aos ambientes de trabalho que não exijam grande esforço intelectual (como a gestão), capacidade de risco, estresse e imaginação.
Seja como for, entre o sonho de se ter um negócio próprio (ou de se conquistar um bom emprego no privado) e a sua concretização existe uma série de condicionantes que, mais do que econômicas, estruturais e conjunturais, são de foro muito pessoal.
O espírito empreendedor não é algo que se aprenda na escola ou em treinamentos posteriores. Esse espírito está no próprio sujeito. É o seu percurso, desde que nasce, que vai definir sua capacidade para a iniciativa, a tomada de decisões e a vontade de criar riqueza (para si próprio e para a sociedade).
O mundo requer empresas comm pessoas inteligentes, competitivas e com grande capacidade de enfrentar o risco e a complexidade. Nos próximos 10 ou 15 anos isso será ainda mais evidente.
Estão as escolas preparando adequadamente as crianças para serem empreendedoras na vida? Em Portugal, não. No meu país as crianças ainda estão sendo preparadas para terem um emprego, algo que garanta uma remuneração a troco de um trabalho rotineiro e lhes permita ter e sustentar uma família (objetivo muito marcado pelo espírito pequeno-burguês).
Isso de ter um emprego é muito diferente de ter um negócio ou de ser um profissional com ambição. A preparação intelectual e a educação para um emprego estável ainda é o principal objetivo do ensino público. Na verdade, as crianças são formatadas por professores que são, nada mais nada menos, empregados do Estado. Não conseguem pois transmitir nada que desperte o espírito empreendedor nos alunos pois também os programas escolares, que foram redigidos por altos funcionários do Ministério da Educação, não prevêem qualquer aprendizado na matéria.
Interrogo-me se não é tempo da escola sair do seu atraso (na verdade, ela segue ainda o modelo da Era Industrial) e oferecer às nossas crianças uma cultura diferente que as prepare para o empreendedorismo.
Enfim, o tema daria para longas conversas e debates.
Um abraço,
Nelson Lima
CEO do Instituto da Inteligência (Portugal)
Managing Director do F.I.Management (Reino Unido)
10 mar, 2010 11:09
[...] não é a primeira vez que escrevo um artigo para comentar um anterior (vide essa discussão interessante sobre funcionalismo público e crescimento econômico ). Porém, diante da celeuma em torno do [...]