Como Viver a Vida, segundo a Globo

20 jan
2010

É fato: as novelas da Globo e seus programas de grande audiência continuam ditando normas, valores e costumes. Volta e meia ouvimos alguém soltar famosos bordões como “hare baba”, “tô certo ou tô errado?”, “né brinquedo não”, “ishalá”, e outros consagrados pelos folhetins globais.

Antes que alguém levante a mão para perguntar, esse texto tem, sim, muito a ver com Administração. Qualquer evento que influencie, direta ou indiretamente, o nosso comportamento é extremamente importante para a forma como conduzimos os nossos negócios. Não é à toa que os grandes anunciantes disputam a peso de ouro o horário nobre da televisão brasileira – bem como os próprios atores. Da mesma forma, as grifes (re)direcionam suas coleções aos estilos exibidos pelas belas e influentes atrizes das novelas, mesmo que essas se passem em lugares exóticos como Índia e Marrocos, ou genuinamente brasileiros como Barretos, Rio e São Paulo. Até pouco tempo atrás, muitas moças estavam usando parte do sutiã à mostra, para imitar o modelito de Norminha, a simpática – e faceira – personagem interpretada recentemente por Dira Paes. Novelas ditam modas e, como administradores, devemos estar atentos.

Espanta-me essa última, que traz o curioso título de “Viver a Vida”. Apesar de apresentar depoimentos emocionantes de pessoas reais que superaram grandes problemas no final dos episódios, Viver a Vida dá um show de deturpação de valores do começo ao fim de cada capítulo.

Normalmente, as obras de ficção dividem claramente as pessoas entre boas e más, o certo e o errado são evidentes, e nos colocamos a torcer pelo sucesso do protagonista e o castigo dos vilões, como o fizemos em A Favorita, com o duelo entre Donatela e Flora.

Na novela de Manoel Carlos, esse dualismo não existe. Com a desculpa de aproximar seus personagens da realidade, o autor lhes confere virtudes e defeitos. Entretanto, paira um ar de normalidade sobre todas as safadezas cometidas pelos personagens, que eu chego a me perguntar o que ele quer dizer, realmente, com “viver a vida”.

Viver a Vida é uma novela onde praticamente todos os personagens enganam uns aos outros. O marido trai a esposa com a prima dela, a esposa trai o marido com o cara da academia, o outro troca a companheira de uma vida inteira por uma modelo 30 anos mais jovem , que agora já vive um affair com o sujeito que conheceu no meio do deserto (que corre o risco de ser filho de seu próprio marido), irmãos (gêmeos!) disputam a mesma garota… ufa! E tem muito mais, mas não quero tirar a paciência do leitor com essas picuinhas.

Onde mora o perigo?

Diversos estudos, em especial os conduzidos pelo Prof. Robert B. Cialdini, da Arizona State University, demonstram que temos uma grande tendência a fazer o que a maioria faz – mesmo que seja um comportamento socialmente indesejável. Segundo Cialdini, somos naturalmente maria-vai-com-as-outras*.

Manoel Carlos gasta o seu latim para provar que trair é algo normal, que todo mundo trai todo mundo e não há nada reprovável nisso. Pelo contrário: é até algo bonito, poético. As puladas de cerca ocorrem sempre com o belíssimo pano de fundo da cidade maravilhosa ao entardecer, do alto de uma asa delta, ou nas areias paradisíacas de Búzios, ao som de uma belíssima trilha sonora. Sei lá, sei lá…

Há algum tempo, havia em minha cidade um jornalzinho que circulava entre os colégios, cuja maior atração eram os recadinhos que os alunos postavam uns para os outros. Depois que Aline Moraes interpretou uma jovem lésbica em uma novela, houve uma explosão de recados (românticos) de garotas para garotas. Não estou fazendo juízo de valor no que diz respeito às escolhas sexuais de ninguém. Entretanto, desconfio que muitos desses recados não tinham nada a ver com a sexualidade dessas garotas. Elas apenas queriam ser a Aline Moraes… Imagino que, se a personagem da bela atriz fosse interpretada por Regina Casé, o efeito no jornal teria sido nulo ou completamente inverso.

Mesmo sabendo que o comportamento é uma potente fonte de influência social, geralmente as pessoas que participam de estudos de psicologia social dizem com veemência que o comportamento alheio não influencia o seu próprio. Você aí do outro lado também deve estar dizendo que isso é uma grande besteira, que você não é influenciado por novelas, nem por ninguém. Beleza. Mas, com certeza, você conhece um monte de gente que adora seguir a maioria.

O perigo está na mensagem, repetida diariamente à exaustão, justamente no horário em que a maioria dos televisores sintoniza a rede do plim-plim. Muita gente assimila o comportamento dos personagens como adequado, moderno e normal. A novela de Manoel Carlos é a receita para o fracasso de uma sociedade que tem (ou já teve?) na família o seu mais firme alicerce. Viver a vida, de verdade, é muito mais do que isso. Tô certo ou tô errado?

Leitura recomendada

* Não deixe de ler o brilhante artigo de Rodolfo Araújo onde ele explora o Princípio da Aceitação Social “(…)todo mundo gosta de se sentir integrado à sua comunidade, ou de pertencer a algum grupo. Suas atitudes deverão, sempre que possível, refletir esse sentimento e essa necessidade“.

** Leia também o livro Família Acima de Tudo, onde Stephen Kanitz fala sobre a importância da família.

Mídia indoor no lugar errado

12 jan
2010

Nos últimos tempos, temos visto uma explosão da mídia indoor – formatos de divulgação adotados dentro de estabelecimentos comerciais, elevadores, salas de espera e, até mesmo, restaurantes. Tem sido um bom negócio para as agências, anunciantes e, também, para as empresas que alugam seus espaços para disponibilizar os equipamentos necessários para a veiculação das propagandas – normalmente, um monitor de LCD.

Acredito na eficácia da mídia indoor. Aparelhos de TV tem o poder natural de prender nossa atenção. Quando estamos entediados em uma sala de espera, por exemplo, nossos olhos repousam naturalmente em qualquer aparato que apresente imagens em movimento. Não lembro de ter consumido algum produto ou serviço divulgados nesse formato, mas com certeza as marcas estão guardadinhas no fundo do meu subconsciente, esperando o gatilho adequado para que eu me recorde delas.

Entretanto, há lugares e lugares para se colocar um monitor de LCD e veicular propagandas. Outro dia, fui a um conceituado restaurante japonês de minha cidade, daqueles que capricham em tudo: atendimento, decoração, música ambiente, iluminação, qualidade dos pratos, enfim: quase tudo perfeito. A única coisa que incomodava era o inconveniente aparelho de TV com os insistentes – e repetitivos – comerciais.

Os donos do restaurante foram tão cuidadosos em criar uma atmosfera singular em seu estabelecimento, mas não se ligaram ao ceder seu espaço para a empresa de mídia indoor. O que as mensagens comerciais fazem é justamente tirar o cliente daquele pequeno universo tão bem concebido: “Ei, esqueça esse sushi! Preste atenção em mim!”, “Olá! Você já conhece os serviços da empresa XYZ?”, “Venha malhar na Academia PQRS”…

Aqui já não entro no mérito da eficácia desse formato de mídia. Questiono apenas se ele é adequado para qualquer ambiente. Será que vale a pena comprometer a experiência de consumo de nossos clientes para faturar um pouco mais no fim do mês?

O que vocês acham?

Enxergar o caminho

29 dez
2009

Outro dia um ex-aluno me enviou um e-mail dizendo que queria investir em sua própria educação no próximo ano, e solicitava algumas sugestões de cursos e treinamentos. O único porém é que tinha de ser algo com retorno imediato, para que o valor investido fosse recuperado o mais rápido possível.

Seria realmente ótimo que as coisas funcionassem assim: você acaba de participar de um treinamento em vendas e – ZÁS! – no fim do mês seu contracheque já vem mais gordo.  Depois de terminar seu curso de MBA, imediatamente receber um aumento de 25%. Infelizmente, demanda-se um pouco mais de tempo para se obter o retorno – pelo menos do ponto de vista financeiro – de nossos investimentos em educação.

Expliquei isso ao rapaz e sugeri que ele fizesse um curso de oratória, afinal todo administrador precisa saber se comunicar e, boa parte do tempo, falar em público. “Se eu fizer esse curso, você acha que eu posso recuperar o investimento em, pelo menos, uns dois meses?”, perguntou logo em seguida. Como havia sido muito claro na primeira resposta, resolvi ser mais enigmático e encarnar o Mestre dos Magos na segunda. Segue um trecho do e-mail que lhe enviei:

Havia um jovem garoto que desejava muito ser um exímio lutador de Kung-Fu. Seu desejo era o de igualar o seu mestre – e um dia vir a superá-lo. Todos os dias, acordava muito cedo para ir ao templo Shaolin praticar. Como todas as crianças de sua idade, o jovem garoto era muito impaciente, queria logo atingir o nível do mestre.

- Mestre, se eu treinar 5 horas seguidas por dia, em quanto tempo chegarei ao seu nível? – perguntou o garoto ao seu professor.
- 10 anos! – respondeu rispidamente o velho mestre.
- E se eu treinar mais tempo, 8 horas por dia?
- 15 anos!
- E se eu treinar 12 horas por dia, só me dedicando ao Kung-Fu?
- 30 anos!
- Mas como é possível? Quanto mais tempo pretendo me dedicar, maior o prazo para chegar ao seu nível?
- Quando se tem um olho fixo no objetivo, resta apenas um para enxergar o caminho.

Nenhum treinamento, por melhor que seja, irá resultar em mais dinheiro na sua conta no fim de semana seguinte. Aliás, quando falamos em EDUCAÇÃO, devemos ir muito além do sentido instrumental que o termo pode suscitar (exemplo: fazer um curso para ganhar mais). Educação é muito mais que um mero instrumento. Quando aprendemos algo, aprendemos para a vida inteira, e não apenas para o desempenho de alguma atividade em curto prazo. Adquirimos conhecimentos e habilidades que irão se conectar a outros conhecimentos e habilidades, a outros e a outros…, ampliando nossa própria consciência e visão de mundo.

Os livros de administração e de outras disciplinas relacionadas ao mundo dos negócios nos ensinam o valor do foco em resultados, da importância de se traçar metas e objetivos para se atingir o sucesso na vida profissional e pessoal. Eles estão certos e não estou aqui para desmenti-los. O estabelecimento de metas, por exemplo, é uma forma inteligente e pragmática de estimular e proporcionar o crescimento em qualquer área de atuação. Terminou a primeira fase do jogo? Passe pare a seguinte. Conquistou a faixa amarela? Hora de conseguir a azul. Terminou a faculdade? Siga para a pós-graduação. Foi promovido? Continue em direção ao topo.

E, de fato, vamos seguindo, com ânsia, com pressa, um degrau após o outro, sempre com a ilusão de que existe um ponto imaginário que indique que “chegamos lá”, que a vida se estende como uma imensa linha reta, ou como um plano cartesiano, onde o eixo das abscissas (x) representa o tempo e o das ordenadas (y) as nossas conquistas. A vida não é um gráfico. Se assim o fosse, a cada coordenada (x,y) alcançada, em um momento de reflexão, faríamos a seguinte e profunda pergunta: e daí?

Não podemos apenas nos agarrar desesperadamente às nossas metas e esquecer de observar o “caminho”, a senda que traçamos ao longo da vida. É nessa jornada que estão guardados os verdadeiros tesouros que tanto buscamos.

Notou como os últimos 10 anos passaram voando? Que na próxima década tenhamos a sabedoria de atingir nossos objetivos e, ao mesmo tempo, manter nossos olhos abertos e atentos ao caminho. Um feliz 2010 a todos!

Satisfação garantida – ou o seu dinheiro de volta

09 dez
2009

Você já deve ter cansado de ver essa expressão estampada em muitos anúncios por aí: “Satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta”. Quantas vezes você realmente já teve o seu dinheiro de volta quando um produto ou serviço não atenderam às suas expectativas?

Comigo, apenas uma. E foi na semana passada.

Em visita recente a Nova York, seguindo recomendações de amigos, fui jantar no famoso restaurante Planet Hollywood. Trata-se, realmente, de uma experiência singular – a começar pela decoração do local, repleta de fotos, roupas, itens de cenário, figurinos e adereços de grandes sucessos do cinema.

Os mesmos amigos que recomendaram o restaurante  disseram que eu não poderia deixar de provar as deliciosas BBQ Pork Ribs, umas costelinhas de porco preparadas à moda americana. No cardápio, era de dar água na boca:

BBQ Pork Ribs

E, de fato, o prato era divinamente preparado, correspondendo exatamente à foto do menu. O único senão era o gosto: muito doce, praticamente temperado com açúcar.

Fiz o que pude, mas não consegui comer as benditas costelas e tive que me contentar com as batatas fritas.

É importante fazer uma ressalva: o paladar, assim como a cultura, varia de região para região, de país para país. O meu, particularmente, é de gaúcho acostumado com carne temperada apenas com sal grosso. As pork ribs são, certamente, excelentes para o paladar americano, acostumado com molhos barbecue e temperos adocicados. Quando o garçom me perguntou se não havia gostado do prato, foi exatamente o que eu disse: “é muito doce para o nosso paladar“.

Sem titubear, o simpático garçom lamentou pelo prato não ter agradado e disse que não seria cobrado. Respondi que não havia problema, que poderiam cobrar normalmente e que não era culpa deles. Na minha lógica pessoal de consumidor, seria injusto não pagar, afinal o prato estava bem preparado e, afinal, o problema era meu se eu tinha gostado ou não. Não tinha sido a primeira escolha infeliz em restaurantes e certamente não seria a última.

Ao trazer a conta, surpresa!: não cobraram pelas pork ribs.

Fiquei sinceramente sensibilizado com o gesto e, mais ainda, com a aplicação na prática da filosofia “o cliente em primeiro lugar”. Também fiquei impressionado com a agilidade e o poder de decisão do garçom: sem consultar gerentes ou superiores, tomou a decisão no ato. É exatamente isso o que eles querem dizer com “empowerment“, ou delegar poder. Mais um conceito administrativo na prática.

Há quem torça o nariz para os americanos. Eu tiro o meu chapéu para os caras. Passar alguns dias nos Estados Unidos vale por muitas e muitas aulas de Administração.

Enfim, amigos, é de se pensar. Essa poderia ter sido apenas uma experiência gastronômica mal sucedida e, provavelmente, nunca mais teria voltado no Planet Hollywood. Mas cá estou eu, tecendo elogios públicos para o restaurante, recomendando-o a todos. Vale a pena. É satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta. De verdade.

ExpoManagement vem aí…

26 nov
2009

Pela primeira vez em 5 anos, não vou participar da ExpoManagement. Em virtude de um compromisso inadiável, tive que abrir mão de estar presente nesse que é, sem dúvida, o maior evento global sobre Administração e Negócios.

Dá até tristeza de olhar a programação do evento e não poder ir: Michael Porter, Paul Krugman, Rudolph Giuliani, Bill Tancer, Christie Hefner, Kenichi Ohmae, Ian Ayres, Venkat Ramaswamy, Jack Welch (via videoconferência)…

Quem estiver em São Paulo entre os dias 30 de novembro e 2 de dezembro, trata-se de uma oportunidade ímpar de aprender com os maiores especialistas mundiais em management. Além das palestras principais, há uma série de palestras paralelas gratuitas, ministradas por excelentes profissionais e por professores das melhores escolas de negócios do Brasil.

Ah, e para aqueles que estarão na ExpoManagement, por favor, não deixem de comentar aqui as suas impressões.

Você já comprou o seu Kindle?

06 nov
2009

Como Jeff Bezos e a Amazon estão revolucionando os hábitos de leitura

Comecei a namorar o Kindle em 2008. Tentei comprá-lo pelo site da Amazon, mas sua venda, naquela época, estava restrita apenas para os Estados Unidos.

Na verdade, era muito mais a curiosidade geek de conhecer um novo aparato tecnológico do que o afã de ler livros no formato digital. Aliás, nunca fui muito fã de e-books. Sou do tipo aficionado pelo bom e velho livro de papel. Sou daqueles que se amarram em perder a noção do tempo em livrarias, ir à caça de raridades em sebos e que sente verdadeiro prazer em ter um livro em suas mãos: aprecio o cheiro, o passar das páginas, rabiscar nas margens e guardá-lo na estante, junto aos seus parentes mais próximos. Se empresto algum, recomendo ao sujeito que o trate com carinho e que jamais utilize as “orelhas” como marcador de páginas.

Num determinado domingo de outubro de 2009, uma revista semanal estampava um simpático Paulo Coelho na capa segurando o singelo aparelhinho. “O último livro que você irá comprar”, dizia a manchete que anunciava o lançamento da versão internacional do Kindle.

Fui o primeiro leandro do mundo a comprar o aparelho. Sei disso porque eles geram uma conta de e-mail para os proprietários do Kindle no formato fulano ‘@‘ kindle, e o meu é justamente leandro‘@‘kindle (a omissão do .com aqui é proposital para evitar a captura do endereço por spammers). Poucos dias depois, recebi a encomenda, e parti pro ataque.

A operacionalização é muito simples e dispensa uma leitura mais atenta do manual de instruções. A brincadeira começa quando você acessa a “Kindle Store”, a interface da própria Amazon específica para o Kindle. De cara, você já tem alguns títulos selecionados especialmente com base no seu perfil: “Recommendations for you”. Essas recomendações são feitas com base no seu perfil de leitor, montado a partir de suas compras no site da Amazon. Como leio bastante sobre Administração, Marketing, Empreendedorismo e livros relacionados a Internet, as sugestões para mim são sempre precisas nessas áreas.

Rapidinho, o Kindle consegue fazer você passar lépido e faceiro pelo processo que os profissionais de marketing chamam de AIDA – Atenção, Interesse, Desejo e Ação. Ele atrai sua atenção sugerindo de cara recomendações com base no seu perfil. Em um clique, você consegue saber mais sobre o livro, o que desperta o seu interesse. Na mesma tela, você conhece a opinião e a avaliação de outros leitores que já leram o livro em questão, o que acaba gerando, inevitavelmente, um desejo. Na mesmíssima tela, o botão “BUY“ está ali visível, a um clique de distância. É aí que você entra em ação. Como os dados do seu cartão já estão previamente gravados na Amazon, você não precisa fazer nada: é realmente “1 click to buy”. Click. Em menos de um minuto, o livro está inteirinho no seu Kindle.

Pense na comodidade que isso pode proporcionar. Você pode ler e comprar livros esteja onde estiver: no ônibus, no parque, na praia, em casa, no escritório. Vai muito além de uma simples compra on-line. É imediato.  Gostei-vou-levar-já-levei. Ah, e a coisa não se resume apenas a livros. Você também pode assinar revistas e jornais através do Kindle. O seu jornal do dia, muito antes de chegar às bancas ou até mesmo ser impresso, já está disponível no seu livro ambulante.

Sabe aquelas coisinhas que você compra por impulso no caixa do supermercado, como chicletes, balas e itens do gênero? Você acaba se comportando de maneira semelhante com o seu Kindle, e leva muito mais livros do que levaria se estivesse em uma livraria, por exemplo.

E acaba lendo muito mais também. Não sei se acontece com todo mundo, mas carrego o Kindle pra cima e pra baixo, como se fosse um celular. Com os livros tradicionais, geralmente, só me encontro à noite, depois do jantar, e nos fins de semana. Com o Kindle, estou grudado direto.

Se é ruim ler através do Kindle? Não vou dizer que é a mesma coisa, porque não é. Mas também não é uma experiência que possa ser limitada por melhor ou pior. É algo diferente. Esqueci de dizer que, junto com o aparelho, comprei um estojo de proteção que imita a capa de um livro. Você segura o objeto como se fosse um livro de verdade. Lá pelas tantas, você abstrai totalmente que aquilo é um dispositivo eletrônico.

Jeff Bezos não é tão cultuado no Brasil como Steve Jobs, Bill Gates, ou outros gênios empresariais. Mas, sem dúvidas, ele foi o cara que revolucionou o e-commerce e os nossos hábitos de compra através da internet. O modelo da Amazon serve de referência para toda e qualquer loja virtual que nós conhecemos. Bezos agora está revolucionando, também, o próprio hábito da leitura – um feito comparável ao de Gutenberg com a invenção da imprensa.

O jornalista Robert Spector conta que, certa vez, perguntaram a Bezos se ele pretendia que a Amazon fosse “a Wal-Mart da Web“, ao que ele respondeu: “não pretendemos ser Nada da Web. Somos, geneticamente, pioneiros… Todos aqui querem fazer algo totalmente novo. Todo dia acordo tentando descobrir um meio de confundir jornalistas e críticos que tentam nos aprisionar numa declaração bombástica de oito segundos“. Jeff Bezos diz que um dos modos de definir o sucesso é “a eficiência na refutação das analogias fáceis“. Foi esse espírito inquieto, visionário e empreendedor que tornou o Kindle realidade.

Talvez eu, você e outros veteranos nunca consigamos nos livrar do fetiche pelos livros tradicionais. Mas percebi que é plenamente possível abraçar essa novidade sem dar adeus aos seus fiéis companheiros de jornada. O que o futuro nos reserva quanto ao ato de ler e as formas de construção do saber ainda é uma incógnita. Entretanto, é certo que nossos filhos irão ler muitas e muitas páginas feitas de material intangível e repletas de conhecimento concreto. Viva a leitura!

Arrasta-me para o inferno!

29 set
2009
“Naquilo que concordamos denominar ‘civilização’ reside inegavelmente um princípio diabólico do qual o homem apenas se deu conta demasiado tarde, quando não era mais possível remediá-lo.”

E. M. Cioran (1973)

Arrasta-me para o Inferno (Drag me to Hell) marca a volta do diretor Sam Raimi ao terror, gênero que o consagrou. Se você não gosta de filmes trash, por favor, não vá ao cinema ou alugue esse filme. Mas não deixe de levar em consideração a profunda reflexão sobre a vida corporativa que essa história pode suscitar.

Christine está prestes a ser promovida. Seu único concorrente é Stu, um novato que pode ter a preferência do chefe por saber “tomar decisões difíceis”. Certo dia, recebe a visita da senhora Ganush, que precisa renovar a hipoteca de sua casa para não ser despejada. Christine consulta o chefe para saber se pode prorrogar sua hipoteca ou não. “Já demos a ela duas extensões. É uma decisão difícil. É você quem sabe”, responde o chefe.

As palavrinhas mágicas “decisão difícil” ecoam na mente da protagonista, que vislumbra aí a oportunidade de mostrar serviço e sacramentar sua promoção. O diretor consegue ilustrar com maestria, em poucos segundos, o dilema moral de Christine: ela tem o poder de prorrogar mais uma vez a hipoteca da velha e humilde senhora ou, por outro lado, negar-lhe o benefício e conquistar, assim, a posição almejada.

É nesse ponto que nós, expectadores, acabamos nos identificando profundamente com a personagem. Esse dilema tão comum, tão rotineiro, tão humano, acontece todos os dias em nossas organizações. Não é a defesa dos interesses do banco, nem o “vestir a camiseta da empresa” que pesa na decisão de Christine. É o olhar esperançoso e sonhador à mesa vazia do futuro “gerente-assistente” que motiva a jovem analista. São seus próprios desejos e interesses individuais que norteiam sua decisão: “Eu sinto muito, mas outra extensão não é possível”, comunica à senhora Ganush.

Não quero cometer nenhum spoiler, mas a partir daí, Christine vai, literalmente, comer o pão que o diabo amassou. Antes de terminar a leitura do artigo, assista ao trailler do filme.

Ora, mas é assim que as coisas funcionam”, você pode estar dizendo aí do outro lado. Eu sei exatamente como as coisas funcionam. Aliás, a gente costuma sempre repetir esse argumento quando temos que tomar decisões como a de Christine. É um mecanismo de auto-proteção que nos ajuda a conviver com nossas escolhas e com as decisões que, invariavelmente, temos que tomar. Mas Christine tinha o poder naquela hora…

Pascal disse certa vez que “nem ao homem mais imparcial do mundo é permitido que se torne juiz em seu próprio caso”. Será que era o caso específico da senhora Ganush que Christine julgou naquele momento ou o seu próprio? Pense nisso.

E você, como se comporta em situações como essa? Que tal compartilhar mais abaixo?

A caspa e o poder da amostra-grátis

31 jul
2009

Se você estivesse nos anos 70 ou 80 e alguém lhe pedisse para dizer a primeira marca de shampoo anti-caspa que lhe viesse à mente, certamente você diria: Denorex – e de quebra ainda repetiria o famoso bordão “parece, mas não é”. E hoje, que marca você diria?

Há mais ou menos um ano atrás, comprei alguns livros em uma livraria do aeroporto de Congonhas e recebi de brinde uma amostra-grátis do anti-caspa Clear, que na época também estava com uma forte divulgação na TV e em várias revistas. “Que gesto simpático!”, pensei, saindo satisfeito da livraria.

Na semana passada, minha esposa notou alguns pontos brancos em minha camisa preta. “Você está com caspa”, disse ela, ao mesmo tempo em que passava a mão nos meus ombros. “Parece, mas não é. Isso é poeira”, respondi, tentando disfarçar o embaraço. Fico até sem jeito de comentar, mas não é que era caspa mesmo? Bom, isso acontece nas melhores famílias. Vai dizer que você nunca teve…

Para resolver o problema, corri para o supermercado mais próximo em busca de um shampoo tiro-e-queda. Qual a primeira marca que me veio à cabeça? Aháá! Um ano depois do singelo gesto de ser presenteado com um sachê de anti-caspa em uma livraria, apenas cinco letras dançavam em minha mente: C-L-E-A-R.

Amostra-grátis é um dos recursos mais poderosos e eficazes do marketing. A resposta imediata é a simpatia. Se a comunicação for bem trabalhada – como no caso do Clear, que complementou a distribuição de amostras com propagandas convencionais -, é algo que pode transformar a sua marca em top of mind.

Experimente oferecer algo de graça para os seus clientes ou potenciais clientes. Muitas vezes, amostras-grátis e brindes são determinantes na sua indecisão entre levar a escova de dente comum e a outra também comum, mas que já vem com a pasta, ou entre o celular maneiro que vem com um álbum de sua banda preferida e o outro que só é maneiro e nada mais, entre o carro que inclui o airbag como item de série e o outro que cobra a mais por isso, entre a companhia aérea que somente vende passagens e a outra que premia seus fiéis clientes com passagens grátis.

Todos adoramos essa palavra: “grátis”. Quando recebemos qualquer coisa gratuitamente, acionamos uma necessidade interna de retribuir. Essa retribuição pode ser automática, ou pode vir tempos depois. Cedo ou tarde, cedemos à tentação de retribuir.

Com o perdão do trocadilho, se você quer grudar a sua marca na cabeça de seu cliente, estude formas de recompensá-lo. Ele merece esse reconhecimento. Recompense-o, antes mesmo de ele vir a comprar algo de você. Você pode até ter a sensação momentânea de estar perdendo algo, mas essa é só uma sensação do tipo Denorex: parece, mas não é.

A cultura da corrupção

21 jul
2009
"Seja a mudança que você quer ver no mundo". (Gandhi)

Sabe essas coisinhas corriqueiras do dia-a-dia que revelam a nossa intimidade com a corrupção?  Lembrei-me de uma agora.

Ano passado, eu e minha esposa passamos um tempo em Florença estudando italiano.

O sistema de transporte público de lá, a exemplo de outros países europeus, é bem interessante. Os ônibus não têm cobradores. Você compra um bilhete que vale por um determinado tempo (1 hora, 1 dia, 1 semana, etc.), que deve ser validado assim que você entra no veículo. Eventualmente (mas muito eventualmente mesmo!), um fiscal da companhia aparece para conferir os tickets dos passageiros. Se o sujeito estiver sem passagem ou com ticket fora do prazo, recebe uma determinada multa.

Logo que chegamos na cidade, compramos bilhetes semanais, que custavam algo como 12 euros por pessoa.

O interessante vem agora. Na escola, vários dos nossos colegas brasileiros não entendiam por que havíamos comprado tais bilhetes. Ouvimos vários comentários do tipo: “Dançaram, eles nunca fiscalizam”; “Perderam dinheiro, heim?”, e por aí vai. Nossa resposta era sempre a mesma:

- A regra é clara: se você utiliza um serviço que não é gratuito, deve pagar por ele.

Sem querer generalizar, mas isso é bem típico da malandragem brasileira. O famoso e famigerado “jeitinho”. Parece que existe sempre essa tentação de querer ser esperto, de querer levar vantagem. Pode até parecer bobagem para alguns, mas esses pequenos delitos formam a base de uma verdadeira cultura de corrupção, e são repercutidos em escala maior nas organizações, nas relações pessoais e profissionais e, é claro, na política. Como diria o Barão de Montesquieu, "a corrupção dos governantes quase sempre começa com a corrupção dos seus princípios".

Aposto que você também tem episódios como esse para compartilhar. Comente mais abaixo.

Spam de currículo

07 jul
2009

Não sei por que cargas d’água, recebo uma penca de currículos por e-mail diariamente. São mensagens totalmente genéricas, distribuídas aleatoriamente e sem critério algum para milhares de e-mail na internet. Se você recebe SPAMs tradicionais por e-mail, com certeza já deve ter recebido um spam de currículo.

O destino do spam de currículo não pode ser outro além da lixeira do nosso programa de e-mail. Iludido como sou, chego a marcar o remetente como “bloqueado”, para nunca mais receber mensagens dele. No dia seguinte, novos spammers atacam minha caixa de entrada com suas repetitivas mensagens: “segue o meu currículo para uma eventual oportunidade nessa conceituada empresa”. Delete. “Prezado(a) Sr. (a), busco uma oportunidade profissional. Em anexo…”. Delete! “Assunto: CV”. DELETE!!

Spam de currículo não funciona. Ninguém, em sã consciência, analisa um currículo sem procedência, enviado para milhares de outras pessoas – principalmente se você for de uma empresa de comunicação e receber o currículo de um nutricionista.

Entendo que existe uma grande dificuldade para se encontrar emprego, mas essa abordagem de sair enviando cv para qualquer endereço eletrônico vendido em pacotes de “milhões de e-mails” além de antiético, é extremamente irritante. É quase a mesma coisa que entrar em uma corrente que promete transformar 1 real em 1 milhão e sair enviando e-mails para Deus e o mundo.

Qual a saída? A internet, de fato, oferece ótimas oportunidades para as pessoas aparecerem e construírem relações. Ferramentas como o Linkedin e o próprio Administradores possibilitam a prática de networking de qualidade entre profissionais. Vou além: a internet permite que você mostre facetas de sua personalidade e perfil profissional que um currículo padrão jamais conseguiria exibir. Escrever artigos, por exemplo, é uma ótima estratégia para mostrar seu talento e capacidade intelectual – e, no fim das contas, é algo que você pode, inclusive, citar em seu currículo formal.

Se você não tem o perfil para isso, sites especializados de recolocação profissional são uma ótima pedida e funcionam de verdade. Antes de firmar parceria com uma grande empresa de recolocação on-line, cadastrei meu currículo por lá só para testar a eficácia da ferramenta. Fui convidado para entrevistas em várias empresas, e até mesmo para dar aulas.

Independente da alternativa que você escolher para tirar proveito da enorme potencialidade da internet, passe longe daquelas que prometem “retorno rápido e garantido”, como a promessa dos vendedores de listas de e-mail. Se você quer ficar bem na fita, faça o dever de casa direitinho e mostre para o que você veio. Somente dessa forma suas mensagens serão valorizadas ao invés de irem parar na lixeira de seus destinatários.