Uma geração controle remoto
2011
Não faz muito tempo, em um almoço de domingo, a Dona Márcia, minha mãe, contou como era, no tempo que ela tinha seus 18 anos, fazer uma ligação de Lavras, Minas Gerais (cidade onde sua avó morava e minha mãe passava às férias) para São Paulo. Lavras fica a 240 km de distância de Belo Horizonte, a capital mineira, e a 380 km de São Paulo, cidade onde minha mãe sempre morou.
Tudo começava com uma ligação para a telefonista. Depois disso, era chegada a hora de esperar, esperar, esperar… Isso poderia durar um dia inteiro. Muito diferente de mim, que nasci em 1988 e me lembro vagamente do tempo em que telefone, no Brasil, era um bem tão valioso que sustentava famÃlias, que viviam dos aluguéis deles. Quando eu tinha 10 anos, o setor de telefonia passou por uma privatização e, desde então, tivemos um salto gigante. Para se ter uma ideia, em agosto desse ano, batemos a marca de 220 milhões de celulares, o que significa que a cada 100 brasileiros, 113,08 têm um número de celular.
ICQ, MSN…
Talvez um dos sons que mais representem a Geração Y seja o famoso barulhinho do ICQ. Aquele famoso ah ou (não sei ao certo como escrever, mas você pode ouvir aqui) foi a trilha sonora de muitas noites, junto com o barulho dos duros teclados que eram pressionados freneticamente. Diferente da minha mãe, cresci com mensagens instantâneas. Ao dizer “Olá, tudo bem?
“, recebia um “Tudo e com você?
“, rapidamente – não demorava nem 20 segundos, caso a outra pessoa estivesse em frente ao computador. Se eu tinha algum problema em casa, era muito simples: ligava no celular (dê uma olhada no tamanho que era) do meu pai e resolvia na hora. Já minha mãe, se quisesse falar com o pai dela, quando estava em Lavras, esperava, esperava, esperava…
Uma simples mudança na forma de se relacionar, que na verdade mudou tudo. Hoje, somos uma geração que precisa que o ah ou seja frequente. Somos imediatistas, queremos respostas no instante em que perguntamos, assim como um programa de mensagens instantâneas. E não tem jeito: crescemos assim. Não há tempo para esperar (na verdade a geração Y ainda não teve tempo de pensar sobre isso, temos muitas coisas para fazer: entrar no Facebook, no Twitter, checar as várias contas de e-mail…). Mas, calma, tenha paciência!
É TUDO PARA ONTEM!
A Dona Márcia, em Lavras, não tinha muito o que fazer: ela podia ir à praça, conversar com os primos, frequentar algumas festas, acompanhar sua avó à igreja e ler alguns livros e revistas. Já eu, atualmente, tenho tantas coisas para fazer que não consigo elencar ao certo o que realizar primeiro. E o pior: tudo o que faço (no sentido de produção) sinto que preciso da aprovação social e de um feedback (uma palavra que apavora chefes por aÃ). Mas não nos culpem, por favor.
No tempo do colégio, lembro que todo mês, eu fazia provas ou trabalhos. Ao chegar em casa, dizia a nota aos meus pais. “Mãe, tirei 8,5 na prova de matemática.” A Dona Márcia respondia: “acho que você  pode melhorar essa nota. Estuda mais para a próxima.” Isso não mudou muito, afinal meus pais também foram ao colégio e tinham e esse retorno (positivo ou negativo) de seus pais. O que mudou foi que, na minha época, eu tinha muito mais atividades: inglês, vôlei, natação… Ou seja: eram muitas notas, muitos feedbacks e muita aprovação social.
Para ajudar a aumentar a latente carência de feedback que geração Y sofre, é preciso entender a função um importante e fundamental aparelho: a televisão. Eu passava as tardes em frente a ela. Tinha programas das 13h à s 18h. E lá ficava eu jogado em um sofá, minha irmã no outro, trocando de canais com um controle remoto. Pausa dramática: con-tro-le re-mo-to. Vocês têm noção do que o controle remoto fez com nossas cabecinhas? Essa extensão de nossos braços nos permitia trocar de canais assim que apertávamos um botão (isso é mágico). Não era mais preciso levantar do sofá, dar alguns passos e apertar um botão (ou girar) direto no aparelho. Percebeu? Apertei o botão e tive resposta: imediato. Quer mais? Crescemos esquentando o leite do café da manhã em microondas (é uma baita diferença de esquentar no fogão). Se eu for elencar tudo, esse texto ficará gigante e, sinceramente, hoje em dia (infelizmente) não há tempo para textos muito grandes. Até porque, se você é Y e gostou desse texto, na certa, na metade dele, já queria compartilhar com seus amigos no Facebook, divulgar no Twitter…
Agora você entendeu de onde vem toda essa ansiedade da Geração Y, essa necessidade por respostas rápidas? Aliás, já que o assunto é feedback,  adoraria saber o que você achou do texto, afinal, sou Y.
P.S.1: Se você é Y, vale a pena clicar nos links das palavras, você terá ótimas recordações (e perceberá que não é tão mais jovem assim)
P.S.2: Esse post faz parte de uma série de 9, que irão ao ar nas próximas semanas. A ideia é justamente explicar os porquês da geração Y ser como é.
P.S.3: Quer me seguir no Twitter? Simples assim: @estagiarioy

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