A dura vida do gerente

As queixas por excesso de trabalho vêm se multiplicando nas empresas – ainda que o discurso padrão seja: “sim, trabalho bastante, mas tenho flexibilidade para administrar meu tempo”. Na prática, quer dizer que o sujeito deixa a empresa depois de dez horas de expediente e ainda dedica mais três horas em casa para dar conta dos emails não respondidos, preparar relatórios para a chefias ou deixar um PowerPoint pronto para a próxima reunião de trabalho. Esse é o resumo do cenário nas quase dez empresas que visitei (todas elas corporações com mais de 200 funcionários e faturamento na casa dos milhões ou bilhões de reais) para o Guia Exame-VOCÊ S/A das Melhores Empresas Para Você Trabalhar, publicado em setembro. A mesma situação é relatada pelos outros 14 jornalistas que compõe a equipe do Guia. Juntos, visitamos 225 empresas em todo Brasil. Desse total, são escolhidas, com base em critérios objetivos, definidos pela Redação em conjunto com a FIA, escola de administração ligada à Universidade de São Paulo, as 150 companhias que são consideradas boas para trabalhar.

 Um efeito decorrente do excesso de trabalho é que algumas grandes empresas estão assistindo a uma fuga de gerentes. São eles que mais sentem a pressão do tempo. São demandados diariamente por resultados no curto prazo, pela comunicação eficiente com a equipe, são responsáveis pela retenção dos talentos que integram suas equipes, tem de motivar o time e pensar a estratégia de sua área para o próximo ciclo de negócios. Sem descuidar da própria carreira e, claro, tem também o trabalho do dia-a-dia. Diante de um mercado aquecido, os gerentes têm optado por empresas menores (com estruturas burocráticas também menores) e mais ágeis. Ou então start-ups (empresas em inicio de operação): o trabalho é talvez maior, mas o retorno pessoal e financeiro é o diferencial apontando por alguns executivos. Há ainda outros partindo para o negócio próprio. De novo, o trabalho é maior mas a satisfação pessoal é maior.

 Há cinco anos, o professor James Wright, da FIA, concluiu um trabalho mostrando que o gerente vinha ganhando mais responsabilidades, fruto das estruturas mais enxutas adotadas principalmente pelas grandes empresas. Essa situação é visível hoje. Outro professor da FIA, Joel Dutra (um dos coordenadores do nosso Guia), reuniu informações recentes que mostram como as empresas estão perdendo seus quadros médios. Os motivos: excesso de atribuições e busca de significado no trabalho – que muitas vezes está num outro emprego.

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