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Gutemberg B. de Macedo é diretor da Gutemberg Consultores, empresa especializada em outplacement
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A primeira demissão a gente nunca esquece

“Quando se sentir perturbado pelos acontecimentos e perder a serenidade, controle e domine a si mesmo rapidamente, e não fique transtornado por tempo superior ao da duração da experiência que o havia descontrolado..." Marco Aurélio, imperador romano, 121-180 d.C.

Por Gutemberg Macedo


Inúmeros eventos deixam marcas profundas em nossas vidas. Quem não se lembra da peça publicitária do gênio da propaganda nacional, Washington Olivetto? Aquela que uma adolescente se contempla diante do espelho ao experimentar o primeiro sutiã? A sensação agradável que sente completa-se com as palavras que acompanham a cena: “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”. Outros momentos, no entanto, são lembrados com tristeza profunda e que certamente preferiríamos jamais ter vivido. Pode ser a morte prematura de um filho ou dos pais; o divórcio tumultuado; a falência de um negócio desenhado com esmero e empreendido com energia; a perda de reputação e a primeira demissão – súbita, traiçoeira, inesperada e para a qual suas vítimas nunca se prepararam adequadamente. Lembre-se: controle seu destino, ou alguém o fará por você de maneira perversa.


A primeira demissão, a gente nunca a esquece por várias razões:


Primeira – ela arranca os profissionais do lugar confortável e os atira a um mercado de trabalho desconhecido, imprevisível, incerto, muitas vezes hostil e comprovadamente escasso em oportunidades. O índice de desemprego no país subiu de 12,8% em julho, para 13% em agosto, segundo o IBGE - um dos mais altos de toda a sua história – hoje, ele somam um exército de treze milhões.



Segunda – muitos profissionais não se prepararam adequadamente para os dias de infortúnio. Isto é, não pouparam, não reciclaram seus conhecimentos, não cultivaram ou ampliaram sua rede de relacionamentos, não se aproximaram dos headhunters, não desenvolveram novas competências, entre outras atividades indispensáveis.


Terceira – a perda temporária da própria identidade pessoal. Sem uma posição que os distinga da multidão, indagam: afinal, quem sou eu?  As confissões, comumente feitas por executivos de grandes corporações, ilustram bem esse sentimento: “Senti o chão desabar sob meus pés... fiquei sem rumo... perdi totalmente minha voz... senti-me como um órfão...”, afirmam. Lee Iacocca, ex-presidente da Ford, quando lhe perguntaram como se sentia após sua demissão, deu uma resposta rude, porém autêntica, que traduz um sentimento de perda e frustração: “I feel like a pile of shit”. 


Quarta – o medo de ser visto por familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho como um profissional fracassado, incapaz e, por isso, desempregado. O filme A AGENDA é uma fotografia dessa realidade. Nele o ator principal, Aurélien Recoing, interpreta a vida de um executivo demitido (Vincent) que escondeu o fato de todas as pessoas com as quais convivia até mesmo de sua esposa e filhos. Comportava-se como se tudo estivesse bem. Todas as manhãs saia para “trabalhar”, quando na verdade ficava perambulando pela cidade. Justificava sua ausência do lar, alegando fazer  viagens de negócios. Não se preocupava em conter as despesas, continuava gastando como se a vida estivesse transcorrendo em total normalidade. Com dinheiro emprestado por seu sogro – 25 mil dólares – comprou um carro novo. Entrava em grandes escritórios e permanecia sentado como se estivesse sendo aguardado para uma reunião de negócios. Estes foram alguns dos artifícios que ele recorria para manter as aparências. Quanto mais o tempo passava, mais Vincent se complicava para convencer a família de que tinha uma agenda cheia de compromissos.



Quinta – esta é mais saudável e sublime e representa uma oportunidade única, original e positiva: a de reconstruir a vida pessoal, familiar e profissional de maneira diferente. “As causas oriundas de nós mesmos contribuem mais para a felicidade do que as provenientes das coisas”, dizia o pensador Clemente de Alexandria. 


Recentemente, comemoramos a recolocação de um executivo. Nesse momento, fomos brindados por um discurso comovente - talvez o mais significativo de nossa história como consultores. Suas palavras ilustram de maneira insofismável o peso de uma realidade que ninguém esquece: a primeira demissão.Visivelmente emocionado, começou a falar sobre dois sentimentos que lhe comprimiam o peito: o sucesso de sua recolocação e a rápida recuperação do pai que acabava de se recuperar de um aneurisma cerebral. Para surpresa de todos, ele se virou para o pai e disse:



“Meu pai, no período de dor dupla, seu internamento no hospital e minha primeira demissão, veio a minha mente uma coisa que nunca havia pensado antes. Eu, aos 39 anos de idade, independente, casado e com filhos, não me lembro de lhe ter dito que eu o amava. Agora, diante de todas estes executivos (70 pessoas aproximadamente), eu gostaria de lhe dizer – papai, eu o amo muito – e mais, gostaria de dedicar ao senhor esta celebração porque ela fala de seu renascimento e do meu próprio. A demissão abriu meus  olhos para muitas coisas e me fez repensar várias outras. Fortaleceu minhas convicções, ampliou meus conhecimentos e minha rede de relacionamentos, me aproximou de meus familiares e também me fez compreender que o mais importante na vida não é o TER ou o REPRESENTAR, mas, sim, o SER.”


Moral da história? Se você foi demitido de sua organização, não pense na demissão como algo negativo e deprimente. Lembre-se de que você foi demitido da empresa e não da vida. Portanto, transforme-a em fator positivo, construtivo e parte integral de sua carreira. Lembre-se de que a natureza somente lhe repassa tarefas proporcionais as suas forças e que estas não precisam ser executadas antes do tempo, mas na hora certa. Tudo tem seu tempo. Se você estiver desempregado, celebre, assim mesmo, sua demissão e com lucidez, energia e determinação, procure transformá-la em algo sublime e que jamais esquecerá.