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| Marcelo Aguilar é consultor e palestrante em formação e gestão estratégica de pessoas |
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Uma questão de tempo
Nem sempre um trabalho entregue fora do prazo se dá pela falta de planejamento
Por Marcelo Aguilar
Um silêncio incômodo, e suspeito, percorria a sala de reuniões. Aquela aparente calmaria, enquanto aguardavam a chegada do diretor, era, na realidade, o prenúncio de uma tempestade. O cronograma do projeto estava sobre a mesa. Todos se entreolhavam e se perguntavam: por que as coisas não ocorreram como planejamos? Cada um buscava, no seu íntimo, os motivos da perda de prazo. "Com certeza, a carreira do gerente deste projeto acabou. Foi ele quem não soube conduzir adequadamente", pensavam alguns. "Só não cumpri meu prazo porque fulano me encaminhou a parte dele cheia de erros, que eu tive de corrigir", pensavam outros. Tentavam achar uma resposta que os isentasse.
Num canto da mesa estava Ana Clara. Absorta em seus pensamentos, ela refletia: "por que a vida real é diferente da planejada? Por que as coisas não saem como queremos, ou imaginamos? Será que o tempo é nosso inimigo? Einstein falou que o tempo é relativo. Mas, relativo a quê, mesmo? Como era aquela história do observador na teoria da relatividade? Deixa pra lá ...". Seu semblante mostrava o turbilhão que passava por sua mente: "Os cursos de gerência de projetos nos treinam para identificar os processos e recursos críticos, os chamados ‘gargalos’, e tentar reduzir o risco envolvido em cada um deles. Nos ensinam a desenhar gráficos de Gantt, de Pert, etc. Oferecem um treinamento básico sobre análise transacional para que possamos tentar reduzir as tensões entre as pessoas envolvidas, e conduzi-las para os objetivos acordados por todos. Tudo isso para tentar controlar o tempo?”.
"Não, não, não. O tempo não se controla, o tempo flui", continuava pensando Ana Clara. "Ah! Lembrei! Para tentar controlar as variáveis que afetam a execução das tarefas, no tempo!". Animada pela idéia, ela foi adiante: "Bom, o tempo flui, e não se controla. As tarefas estão definidas, e planejadas. O problema, então, está nas variáveis. Malditas variáveis! Por que não se tornam constantes e previsíveis? Ops, pensei besteira. Se tudo fosse constante e previsível, não precisariam de nós, humanos. Somente nós temos uma certa capacidade de lidar com o imprevisível, de enxergar mais de uma possibilidade e escolher entre elas. Sem as variáveis, podem nos substituir por uma máquina ou, pior, por um simples procedimento.
Olhando para o cronograma do projeto percebo, agora, que as variáveis associadas a problemas técnicos foram, de uma forma geral, bem resolvidas. O que realmente deu dor-de-cabeça foi lidar com os anseios e desejos individuais. Aquela coisa tacanha de exercer o "eu pequeno poder". Mesmo quando era um simples problema técnico, que no final foi resolvido em poucas horas, foram gastas semanas até articular o consenso entre todos os envolvidos, em uma solução única e conhecida".
De repente, tudo ficou claro na mente de Ana Clara. “Tudo não passou de brigas por território. Que coisa mais primitiva! Já tenho MBA, mas acho que vou fazer psicologia para aprender a lidar com as minhas neuroses. E as dos outros". Barulho de porta se abrindo. "Ihhh! O diretor não está com uma cara boa".
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