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Investimento às escuras
Você pode estar aplicando em derivativos sem saber o risco que corre. Veja como isso acontece e o que fazer para proteger seu patrimônio
Por Luciana Del Caro
De um lado, os juros caindo. De outro, uma massa de investidores em busca de aplicações que dêem rendimentos superiores aos tradicionais fundos DI e de renda fixa - agora menos atraentes que há um ano por causa da redução das taxas. Com isso, os chamados fundos multimercado se tornaram a vedete do momento. Como o próprio nome diz, esses fundos operam em diversos mercados como juros, dólar, bolsa e até derivativos. A questão é exatamente os derivativos.
Como pouca gente conhece esse tipo de investimento, prefere manter distância. Acontece que, mesmo que nunca tenha chegado perto de um fundo multimercado e não esteja disposto a tomar riscos, o investidor provavelmente já participou indiretamente do mercado de derivativos. Grande parte dos fundos considerados de baixo risco, como renda fixa e DI, faz operações com esses instrumentos. Mas, afinal, o que são os derivativos? Para não entrar no economês, pense assim: quando você compra um bem ou um ativo, recebe o bem ou o ativo negociado logo após efetuar o pagamento. No mercado de derivativos, as transações são liquidadas no futuro. Os preços no futuro derivam dos preços no mercado à vista, e daí vem o nome derivativos. Fica mais fácil entender o conceito com base em um exemplo concreto. Imagine um produtor de café. Ele sabe qual o custo de produção e o preço da saca no momento em que começa o plantio. Mas não sabe qual será o valor do café quando for comercializá-lo. Ao vender sua produção no mercado futuro, assegura um preço e se protege de uma possível queda nas cotações lá na frente, quando colher o produto. "Os fundos usam derivativos basicamente por três motivos: estratégia operacional, hedge (proteção) e especulação", explica o professor William Eid Junior, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.
Quando o uso do derivativo pode causar perdas elevadas? A resposta implica o uso de outro palavrão: alavancagem. Alavancar é investir em operações de risco às vezes mais do que o patrimônio do fundo. E isso é possível usando os derivativos. Ou seja: se as operações de um fundo bastante alavancado forem malsucedidas, as perdas podem causar estragos consideráveis, inclusive superando o patrimônio do fundo. De acordo com a atual legislação brasileira sobre fundos de investimento financeiro (FIF), para um fundo fazer alavancagem tem de se enquadrar na categoria "genérico". Mas não são todos os genéricos que podem alavancar o patrimônio. Além disso, há a classificação da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid). Segundo esse sistema, aqueles que têm alavancagem trazem isso explicitamente por meio das palavras "com alavancagem" após a categoria principal do fundo (multimercados, renda fixa, ações etc.). O regulamento do produto e seu prospecto também devem contemplar essa possibilidade e, eventualmente, também dizer qual o grau de alavancagem permitido. Nos que não trazem o grau de exposição, o céu é o limite. Por isso, vale um aviso: "É importante ler o prospecto e o regulamento do fundo antes de investir. Se as informações não estiverem claras, o melhor é não aplicar", diz Márcia Dessen, diretora do Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF).
Ainda segundo a classificação de fundos do Banco Central, os fundos referenciados em DI, dólar e outras moedas ou indicadores podem usar derivativos somente para proteção. Os fundos não-referenciados - que não seguem indicador de rendimento -, como os de renda fixa e alguns fundos multimercado, podem usar derivativos para especular, mas não podem alavancar o patrimônio. Já os fundos de ações podem ou não ser alavancados. Perguntar e tirar dúvidas com o gestor do fundo deve ser um bom começo para saber os riscos que se corre. Assim, se decidir por algo mais agressivo, estará preparado para possíveis perdas. Márcia Dessen acredita que é bem provável que muitos investidores que optaram por fundos multimercado não estejam conscientes dos riscos que correm porque eles podem ter apenas olhado o desempenho passado do fundo. De qualquer forma, alguns especialistas da área têm dito que, na média, os fundos multimercado do país não estão muito agressivos. "Mas é preciso levar em conta que nessa categoria há tanto fundos que costumam ter oscilações bruscas em suas cotas quanto mais ‘calmos’ ", diz Marcelo D’Agosto, diretor da Fortuna, empresa paulistana de informações sobre fundos.
Portanto, não se iluda com o bom comportamento dos fundos porque o mercado é imprevisível. Os momentos de mudança de cenário costumam ser complicados. Identificá-los exige conhecimento, olho crítico e boa dose de sorte. O negócio é ficar ligado. Informar-se. Afinal, quando se trata de investir seu dinheiro, todo cuidado é pouco.
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