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Marcos Hashimoto é mestre em administração pela FGV, professor universitário de empreendedorismo na Faculdade Prudente Moraes e consultor de empresas
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Aprenda nas entrelinhas

Você pode não conseguir explicar como aprendeu determinada prática que aplica muito bem, como uma receita clássica de cozinha. Este é conhecimento tácito em ação

Por Marcos Hashimoto

Na semana passada, dei um curso a um grupo de dentistas e médicos num curso de MBA cujo tema era gestão de pessoas. Montei o curso com base em práticas de avaliação de desempenho, mapeamento de competências, condução de trabalhos em equipe, formas de compensação, técnicas de recrutamento e seleção, desenvolvimento organizacional e outros assuntos relacionados. Num determinado ponto da aula, um aluno levanta a mão e fala:

- Professor, é muito interessante tudo o que o senhor está dizendo, mas não se encaixa na nossa realidade. No nosso dia-a-dia, não podemos aplicar estas coisas que você fala, queremos alguma coisa mais prática, algo mais alinhado com a nossa realidade que é o consultório e hospital.

- E qual é o seu objetivo neste curso? - perguntei.

- Eu quero a ‘receita do bolo’, as técnicas do tipo ‘faça-você-mesmo’, uma lista das dicas práticas, os dez passos para administrar pessoas, ou algo do gênero.

- Meu caro aluno, talvez você esteja no curso errado então - contestei, aplicando toda a minha habilidade diplomática. - Posso indicar pelo menos meia dúzia de livros, ou programas de treinamento, muito mais baratos do que este curso, onde você conseguirá este conteúdo. Aqui, só o que posso fazer é ensinar o ‘porquê’ das coisas, mostrar os fundamentos teóricos da disciplina que serão interpretados por vocês e convertidos em aplicações práticas. É o que diferencia um curso de pós-graduação de um curso técnico de curta duração.

- Mesmo assim - continuei -, não tenho certeza de atingir os objetivos propostos por um curso deste porte. Aqui vocês são estimulados a pensar, questionar, interpretar reativamente o conhecimento passado e aplicá-lo da forma que melhor convier ao seu dia-a-dia. Você começa a sair do seu mundo quando é confrontado com outras realidades diferentes da sua. Não necessariamente você poderá aplicar no seu consultório as ‘best practices’ usadas no Citibank, por exemplo, mas, no mínimo, conhecer os problemas que instituições maiores enfrentam o ajudam a encarar seus próprios problemas a partir de outros ângulos. A comparação com negócios maiores ajuda a ter uma dimensão mais clara do seu próprio negócio. Este desenvolvimento da visão é que contribui com o aprimoramento de sua capacidade perceptiva do mundo externo. É o conhecimento explícito construindo o conhecimento tácito.

Neste momento, o resto da classe que escutava atentamente minha argumentação, se inquieta: Conhecimento tácito? Conhecimento explícito? O que é isso?

O conhecimento tácito aproveita o que você já conhece, constrói o conhecimento com base na experiência. A mesma receita de bolo, na mão de duas cozinheiras experientes, vai gerar dois bolos diferentes, porque elas agregam ao conhecimento explícito, que é a receita escrita, um conhecimento subjetivo, não mensurável, que não se ensina, não se transfere de forma objetiva em sala de aula ou manuais.

São minúcias como o fato de retirar os ovos da geladeira com duas horas de antecedência para adquirir a temperatura ambiente, a direção e o ritmo dos movimentos para bater a massa, aquela pitadinha de sal a mais, o tipo de forno usado, tudo enfim, que não está escrito na receita. Diferenças sutis que fazem toda a diferença no produto final, os chamados ‘macetes’ que existem em qualquer processo e fazem parte daquele conhecimento que se adquire com a experiência, com a vivência de ter feito inúmeros bolos na vida, a parte do conhecimento que fica escondido, implícito, ao contrário do conhecimento explícito que é aparente, claro, exposto, regrado e formalizado, como a descrição dos ingredientes com suas quantidades e o passo-a-passo do processo de confecção do bolo.

O empreendedor se diferencia de um executivo típico, entre outras coisas, por este conhecimento tácito, aquele ‘quê’ a mais que ele mesmo não sabe explicar o que é e onde aprendeu, um instinto, uma percepção.

Assim, não existe uma ‘receita’ para ser empreendedor. As escolas de administração não formam empreendedores, pois não sabem lidar com o conhecimento tácito, construtivista. Simplesmente geram e capacitam as pessoas para se tornarem hábeis no uso das ferramentas, mas é o conhecimento tácito que forma o empreendedor. Nem sempre, se lhes perguntar, vão saber como e quando aprenderam aquilo, mas saberão fazê-lo melhor do que os outros.

Voltando à sala de aula, os alunos entenderam que, no final das contas, eles não devem medir o seu desempenho em termos do que aprenderam no final do curso, mas no que se tornaram a partir do que aprenderam, pois o verdadeiro papel do professor é educar e não só ensinar, é formar e não só informar, é construir o conhecimento e não só repassá-lo de forma pasteurizada, impassível e padronizada.