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Paulo Angelim é consultor em Marketing, Vendas e Responsabilidade Pessoal. Autor dos livros "Desenvolvimento Profissional: Alcance o sucesso sem vender a alma" e "Por que eu não pensei nisso antes?
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Sinuca executiva

O executivo brasileiro está dividido entre a família e as riquezas

Por Paulo Angelim

Entre os executivos americanos, alemães e brasileiros, o brasileiro é inegavelmente o que vive um dos maiores conflitos existenciais, e, por isso, é o mais propenso ao estresse. Pelo menos é o que podemos inferir da pesquisa apresentada na edição 805 de EXAME, na matéria “O que é sucesso?”, de David Cohen. Segundo a pesquisa, coordenada no Brasil pela professora Betania Tanure de Barros, da FDC, o executivo brasileiro dá, numa escala que vai de –2 a 2, nota 1,73 para o quesito riqueza pessoal, ao mesmo tempo em que dá 1,50 para o atendimento dos interesses familiares.
 
No quesito riqueza pessoal, o americano (0,71) e o alemão (–0,97) dão notas inferiores que o brasileiro. Mas é fácil imaginar o porquê: os dois povos já atingiram níveis de distribuição de renda e qualidade no serviço público que reduzem em muito a pressão sobre esta necessidade pessoal para se alcançar o sucesso. Já o brasileiro sabe que a garantia de um padrão mínimo em serviços de saúde, educação e transporte não pode ser confiado ao Estado. Sabe que tem que se valer de seu esforço pessoal para a conquista desses benefícios. Além disso, as inconstâncias da economia e uma previdência pública débil ajudam a aumentar o ritmo da corrida em busca do eldorado financeiro, e no menor tempo de vida possível. Não bastasse isso, num país de distâncias sociais abissais, quem “tem mais” é mais respeitado e valorizado.
 
Quanto às preocupações em atender os interesses familiares, o executivo americano (-0,94) e o alemão (-0,75) dão notas absurdamente baixas para este quesito. Entender o fenômeno exigiria um estudo sócio-antropológico aprofundado. O fato é que eles são bem diferentes do executivo brasileiro, que, por enquanto, revela através da pesquisa que a família ainda é parte integrante do sucesso pessoal.
 
Paradoxalmente, esses dois quesitos, tempo para família e conquista de riquezas, são praticamente incompatíveis. E é exatamente esse o furacão que assola a alma e o coração tupiniquins dos nossos ninjas corporativos: “como alcançar a riqueza e ainda dar a atenção que minha família merece e exige?” A razão de tal conflito ser caracterizado existencial reside num simples fato: falta tempo para os dois. Excetuando uma esmagadora minoria que alcança a riqueza pessoal por fruto de uma única “grande tacada”, ou de uma “sacada fenomenal”, o sucesso financeiro “da noite para o dia” leva, na verdade, inúmeros dias e noites de trabalho contínuo e árduo para ser alcançado. Na outra ponta, muitos executivos já descobriram que não é através dos benefícios adquiridos pela conquista financeira que ele irá atender os interesses mais nobres de sua família, como atenção, amor, companheirismo, valorização. Ele sabe que tais coisas só se conquistam com presença física, e isso consome tempo. Mas, que tempo, se ele está sendo usado para conquistar cada vez mais e mais riquezas?
 
Pois nessa sinuca de escolher entre riqueza e família, só existem duas saídas: ou o executivo brasileiro administra suas expectativas financeiras e redefine suas necessidades de riqueza, ou abre mão, mesmo que  temporariamente, do projeto família. Assim têm feito muitos povos de países ditos de “primeiro” mundo. Mas, para nós essa renúncia é mais difícil face nossa latinidade, formação cultural e também religiosa, que nos leva a contemplar a família como uma etapa importante da realização pessoal.
 
Mesmo que o valor família tenha se alterado ao longo dos tempos, casar e ter filhos ainda está no projeto de sucesso da grande maioria dos cidadãos de nosso país. Mas, se a sociedade não parar para rever seus conceitos de riqueza, dificilmente o projeto família entrará na escala de prioridades do executivo brasileiro.
 
Muitos profissionais, ao final de suas vidas, têm algumas poucas coisas do que se arrepender. Mas, encabeçando-as, quase sempre surge o fato de terem estado ausentes quando do nascimento do primeiro filho. Ausentes na festinha de formatura no ABC, ou à primeira apresentação de balé da filha. Arrependem-se do filho ter aprendido a andar de bicicleta com o tio, ou a tia; de terem faltado à comemoração do aniversário de casamento porque estavam em viagem. Ou ter comemorado o êxito do filho no vestibular com um seco, frio e distante telefonema, ao invés de um abraço. E o pior é que muitos de nós precisaremos chegar ao fim da vida para encararmos o fato de que jamais deveríamos ter trocado aqueles minutos preciosos na presença da família por alguns centavos a mais, uma conta a mais conquistada, ou mais um negócio fechado. Eis a sinuca de bico do executivo brasileiro avaliado na pesquisa. Talvez a sua sinuca, que agora ler este artigo.