Assine VOCÊ S/A
BUSCA AVANÇADA
VOCÊ NA REDE
COLUNISTAS
EVENTOS
TESTES
NEWSLETTER
QUEM SOMOS
FALE CONOSCO
ANUNCIE
 
 
 
Marcos Hashimoto é mestre em administração pela FGV, professor universitário de empreendedorismo na Faculdade Prudente Moraes e consultor de empresas
Links
Leia outros artigos de Marcos Hashimoto
Fale com o autor
Envie este artigo
Churrasqueiro de rua

Conversar com os clientes, ouvi-los e dar atenção para eles foi a solução que o churrasqueiro encontrou para ganhar mais dinheiro

Por Marcos Hashimoto

Caminhava pelas ruas de Pinheiros, em São Paulo, perto do Largo da Batata, por volta das 8 da noite, quando notei a considerável movimentação nas barracas perto do terminal de ônibus. O que chamava a atenção, no entanto, não eram as tradicionais barracas de camelôs, mas sim, as barraquinhas de churrasco. Aqueles difamados churrasquinhos cuja carne é de origem duvidosa. Passando por uma delas, vejo o churrasqueiro atendendo um cliente e perguntando-lhe: ‘Com prosa ou sem prosa?’ ao entregar um espetinho.

A princípio achei que não tinha entendido bem o que ele disse. Mas não era possível que tivesse me equivocado, tenho boa audição e eles estavam a menos de 2 metros de mim. Fiquei tão intrigado que voltei à barraca no dia seguinte, no mesmo horário, disposto a provar aquela famigerada refeição só para satisfazer uma curiosidade.

Ao pedir um espeto, o moço me pergunta: “com prosa ou sem prosa?” Diante da minha cara de interrogação, ele esclarece: “Se você quisé proseiá é um preço, e calado é outro”. Como minha expressão interrogativa insistia, ele desfia o seu discurso pré-programado:

- O senhor pode só comprar o espeto e comer aqui ou levar embora, mas se quiser, pode também sentar aqui prá gente proseá um pouco, só que é outro preço, um pouquinho mais caro.
- Como assim? Se eu quiser conversar com você eu pago mais pelo espeto?

Diante da afirmativa, não vi outra alternativa para matar minha curiosidade senão aceitar o ‘serviço agregado’. Ele me perguntou o que eu fazia, pegou um espeto também, e começou a me ouvir. Passados alguns minutos eu me dei conta que ele fazia muito bem algo que poucos sabem fazer: Ouvir. Ouvir com todos os sentidos, com interesse real, perguntando para saber mais sobre alguma coisa. Mais um pouco eu estaria desabafando minhas mágoas, frustrações, ressentimentos, aflições, sentimentos, tudo.

Como é grande essa carência humana: ter alguém para te ouvir. Já ouvi falar de serviços de ouvidores profissionais como: ombudsman, psicólogos, o depto de RH das empresas, CVV, mas camelô é realmente inusitado.

Senti que era a minha vez de perguntar as coisas para ele: “Como você percebeu que podia ganhar dinheriro com isso?” Ele disse que já fazia isso sem cobrar. Os mais ‘chegados’ vinham para comer um espeto, mas ele sabia que na verdade eles vinham para desabafar, o espeto era uma mera justificativa. O que eles queriam era alguém para ouví-los.

“E quando você começou a cobrar, alguém se indispôs?”, perguntei. Ele confessou que algumas pessoas deixaram de falar com ele e a maioria até ficou indignada. “O quê? Agora vai cobrar pra eu falar? Tá Louco!!!!”, diziam. Mas, com o tempo, a necessidade humana falou mais alto, e esta gente, sofrida, calejada, enrustida, que vive dia após dia sem saber se vai estar vivo no dia seguinte, tinha uma necessidade muito grande de se fazer ouvir. Assim, alguns voltaram. “Não todos, mas é até melhor porque não ficam mais me alugando.”

Isso, caros leitores, é mais um modelo de negócios inovador. O conceito de Modelo de Negócios teve seu apogeu durante a era das ‘ponto.com’ ou empresas de internet. O ambiente virtual propiciava uma diversidade de serviços que não encontrava limites para a imaginação. Qualquer investidor queria saber o modelo de negócio proposto, ou como a coisa funcionaria.

Modelo de Negócios é, portanto, a dinâmica do negócio, como a idéia é formatada a ponto de se converter em algo financeiramente interessante, incluindo a estrutura de custos, os investimentos requeridos, o modelo de valor do cliente, a expectativa de demanda, o fluxo operacional, a cadeia de suprimentos, tudo enfim que dê uma idéia da lógica do negócio.

Num bom modelo de negócios, cada parte da estória tem que estar bem amarrada, tem que fazer sentido com o resto. Qualquer parte mal explicada é indício de falha no modelo que aumenta as chances de não dar certo. Veja o exemplo dos cheques de viagem (traveller checks). Na essência, este modelo é uma forma do banco obter empréstimo sem juros, pois compramos o cheque à vista e só descontamos quando precisamos, tudo em troca de segurança. Um modelo de negócios perfeito.

De repente, o churrasqueiro parou de falar, se negou a responder qualquer pergunta minha. Deve ter desconfiado que eu estava atrás de algo interessante que ele tinha e argumentou: “você me pagou para ouví-lo, não para falar. Para falar sai mais caro!”, brincou. Dei um sorriso, agradeci e fui embora. Além de criativo o churrasqueiro é esperto. Seu modelo estava bem fechadinho!